Puxando a capivara

Confira a coluna de estreia de Jamil Albuquerque

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Numa madrugada dessas, em Ribeirão Preto, fui parado pela polícia por passar um sinal vermelho. Tinha acordado para buscar minha filha de 18 anos em uma festa de amigas, a poucos quarteirões de casa. Por excesso de autoconfiança sai sem documentos. O excesso de autoconfiança é imprudência. Ficou a lição.  Perguntei amistosamente porque me parar assim, afinal, passar sinal vermelho às 3 da manhã não é proibido em lugar nenhum do mundo. “Foi só para conferir, senhor. Mas já está conferido, e a sua capivara é limpa; pode ir em tranquilo”. Fui liberado pela “capivara limpa”. 
No interior de São Paulo, quando se fala puxar a capivara , significa tirar a folha corrida de alguém. É uma espécie de senha: Puxa a capivara do indivíduo! Lá se saberá quem você é. Nosso rosto é nossa folha corrida. Nosso rosto é a nossa capivara, nossa folha corrida.   Construímos nossa fisionomia a cada dia, como escultores, através de nossas atitudes, pensamentos e obras.  Diz-se que aos 20 anos temos o rosto que Deus nos deu, aos 40 anos temos o rosto que nós fizemos e aos 60 anos temos o rosto que merecemos. A palavra fisionomia é o somatório de duas palavras gregas quer dizer natureza e sentença. Ou seja, nosso rosto é uma sentença da natureza.
               
Clarice Lispector

 “Que mistérios tem Clarice, pra guardar assim tão triste, dentro do seu coração?”, já perguntava Chico Buarque. Meu filho Jason diz, em tom de brincadeira, que quando se quer parecer inteligente, escreve-se uma frase e coloca- se embaixo “Clarice Lispector”. Mas essa foi mesmo a Clarice quem disse: “O corpo é a sombra da alma”. O Corpo é um molde onde se expressam as paixões, traduzidas pelas expressões corporais. Não são poucas as pessoas que nos falam com os olhos , mais do que com a boca. Ralph Emerson dizia que “aquilo que você é fala tão alto que não consigo ouvir aquilo que você diz”.                     

Teatro da vida 

Lembrei-me de Ariano Suassuna, que dizia que se a tecnologia tomar conta de tudo, o mundo será um mundo de idiotas, pois não teríamos mais as emoções.  Nós, os latinos, temos a expressão “de corpo e alma”, que é quando estamos com todas as emoções e forças numa função.  William Shakespeare dizia que a vida é um grande teatro onde temos a oportunidade de escolher se queremos ser protagonistas ou coadjuvantes, mas não nos é dado o direito de escolher o final. Ou seja, a vida é uma manifestação das inquietudes da alma, cujo rosto é a vitrine.                    

Resumindo  

O nosso rosto é o resumo de nossa biografia. De forma que toda a manhã quando olhamos no espelho, puxamos a ‘capivara’ do líder que nós somos. E nós, quando nos olhamos no espelho…será que  estamos ficando com a cara que  merecemos? Como estamos esculpindo a nossa fisionomia?

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