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Gratidão e inveja são sentimentos divergentes operantes desde o nascimento, tendo como primeiro objeto o seio. A inveja atua não apenas nas situações de privação, mas também na formação do caráter, de forma inconsciente. Pode atuar, inclusive, na reação terapêutica negativa, dando limite para o êxito analítico. Ela é uma expressão sádico-oral-anal de impulsos destrutivos.

A inveja se dá nas dificuldades do bebê em construir o objeto bom (significado da bondade materna, paciência e generosidade), pois se sente privado da gratificação do seio. É um sentimento raivoso para alguém que possui e desfruta de algo desejável, a qual incentiva ações do bebê para estragar esta coisa. Remonta a mais arcaica e exclusiva relação com a mãe (sem outros). Visa depositar maldade no objeto, excrementos maus, partes más do self com a finalidade de destruí-la. No sentido mais profundo, sua intenção é destruir a criatividade da mãe. É um aspecto destrutivo dentro da identificação projetiva. A inveja faz com que o bebê sofra ao ver que outra pessoa possui o que ele quer para si. O invejoso sente-se bem com o infortúnio dos outros. Qualquer esforço para satisfazê-lo é infrutífero.

Já o ciúme, diferentemente da inveja, presume uma relação com outra pessoa. É um sentimento de amor que lhe é devido e que foi tirado por um rival (gerando privação da pessoa amada). O ciúme teme perder o bom do objeto (veja que aqui existe a relação com o bom). Pode ser uma paixão nobre aguçada pelo medo ou ignóbil voracidade estimulada pelo medo.

Outro conceito é a voracidade. Ela é uma ânsia insaciável que visa sugar, devorar, acabar com tudo que o objeto é capaz de dar. É uma introjeção destrutiva (precisa acabar com o que tem de bom).

A voracidade, a inveja e a ansiedade persecutória intensificam-se umas às outras. O sentimento de dano causado pela inveja gera ansiedade e incerteza da bondade do objeto, o que aumenta a voracidade e os impulsos destrutivos. A privação também intensifica a voracidade e a ansiedade persecutória no bebê. Ele acredita existir um seio inexaurível, ainda que o bebê seja inadequadamente amamentado. Nessa circunstância, o seio torna-se mau por reter o alimento e o amor só para si, o bebê odeia e inveja o seio mesquinho. Essa facilidade com que o bebê percebe o leite saindo do peito é vista por ele como um dom inatingível.

Por isso, o primeiro objeto a ser invejado é o seio, tendo em vista que ele tem tudo que o bebê deseja: alimento e amor. Dessa forma, a inveja brota de dentro e sempre encontra um objeto sobre o qual focar-se, é insaciável. Somado ao ressentimento e ódio, torna a relação com a mãe perturbada. A inveja excessiva indica que traços paranoides e esquizoides são anormalmente intensos e que o bebê pode ser considerado como doente.

Os ataques sádicos são determinados por impulsos destrutivos e a inveja lhes confere um ímpeto especial. O seio bom perde seu valor por ter sido objeto de ataque (mordido, envenenado por urina e fezes). A inveja excessiva aumenta a duração e a intensidade desses ataques, tornando difícil para o bebê a recuperação do objeto bom.

A inveja na transferência aparece em forma de crítica destrutiva às interpretações do analista ou na dificuldade em atribuir sucesso ao trabalho do analista. Em alguns casos, o progresso lento também é relacionado à inveja. Quando bebê, em decorrência da intensidade de mecanismos paranoides e esquizoides, ele não é capaz de manter separados o amor (objeto bom) e o ódio (objeto mau) e se sentirá confuso entre o que é bom e o que é mau em outros contextos. Se o objeto bom não pôde ser assimilado nos estágios primários, o curso da análise é prejudicado pela transferência negativa.

Algumas pessoas agarram-se a qualquer interpretação que alivie sua ansiedade e prolongam a sessão na tentativa de tomar para si tanto quanto possível aquilo que é sentido como bom. Outras têm tanto medo de sua voracidade que fazem questão de saírem na hora.

A criança que tem um objeto bom introjetado, tem capacidade de amor e gratidão e pode suportar estados temporários de inveja, ódio e ressentimento sem que fique profundamente danificada. Quando esses estados negativos são transitórios, o objeto bom é capaz de ser recuperado a cada vez e isso fornece a base da estabilidade e de um ego forte. Ao contrário do que se imagina, a ausência de conflito, caso possível, priva o bebê de enriquecimento da personalidade. Pois o conflito e a necessidade de superá-lo é um elemento essencial à criatividade.

Um dos principais derivados da capacidade de amar é o sentimento de gratidão. É o fundamento da apreciação do objeto bom nos outros e em si mesmo. O bebê só pode sentir satisfação completa se a capacidade de amar é suficientemente desenvolvida. Sendo assim, a satisfação é a base da gratidão. Essas experiências constituirão toda a felicidade subsequente, pois tornam possível o sentimento de unidade com outra pessoa, de ser plenamente compreendido, o que é essencial para toda a relação amorosa ou de amizade.

Se há experiência frequente de ser alimentado sem que a satisfação seja perturbada, a introjeção do seio bom acontece com relativa segurança. A gratificação se transforma em uma dádiva que o bebê deseja guardar do objeto amado. Isso é a base para a gratidão. Intimamente ligada à confiança em figuras boas. Ou seja, ser capaz de assimilar o objeto amado sem que a voracidade e a inveja interfiram demais, pois a internalização voraz perturba a relação com o objeto. Na relação boa com o objeto, predomina o desejo de preservá-lo e poupá-lo (ao contrário da relação voraz).

A confiança na própria bondade é decorrente da capacidade de investir libidinalmente no objeto externo que ama e protege o self e que é amado e protegido pelo self.

Quanto mais frequentemente é sentida e aceita a gratificação proporcionada pelo seio, mais frequentemente são sentidos os sentimentos de prazer e de gratidão e maior é o desejo de retribuir o prazer proporcionado pelo seio. Essa gratidão em nível mais profundo é responsável pela capacidade de reparação e pela sublimação.

A gratidão também está intimamente ligada à generosidade (capacidade de compartilhar com os outros dons do objeto). Torna possível a introjeção de um mundo externo mais amistoso. Em contraposição, pessoas que não têm esse sentimento de riqueza e forças internas suficientemente estabelecidas, podem ter acessos de generosidade que são seguidos da necessidade exagerada de reconhecimento e gratidão, ligados à ansiedade persecutória de ter sido empobrecida ou roubada. O sentimento de haver danificado e destruído o objeto originário prejudica a confiança do indivíduo na sinceridade de suas relações subsequentes e o faz duvidar de sua capacidade para o amor e para as coisas boas.

Quando o sujeito não consegue estabelecer firmemente seu primeiro objeto, não é capaz de manter gratidão e qualquer aumento na ansiedade persecutória faz com que o objeto originário bom seja completamente perdido por processos de cisão (divisão do objeto em seio bom e seio mau) e desintegração. A cisão dispersa os impulsos destrutivos e as ansiedades persecutórias. Ela é uma defesa da posição esquizo-paranoide. A cisão é a pré-condição para a estabilidade emocional do bebê, pois mantém o objeto bom separado do mau, o que deixa mais elevada a segurança do ego. Essa divisão só é bem-sucedida se existir uma capacidade de amar e um ego relativamente forte. A cisão é essencial para a integração, pois preserva o objeto bom que mais tarde será associado ao mau.

A integração gradual advém da pulsão de vida e se expressa na capacidade de amar. Já a tendência oposta cinde seus objetos e a si mesmo em resposta à ansiedade primordial.

A inveja excessiva interfere na cisão fundamental e a estruturação do objeto bom não pode ser completamente conseguida. Uma cisão muito profunda entre os objetos indica que não é o bom e o mau cindido, mas um idealizado e um extremamente mau. Essa divisão revela que os impulsos destrutivos, a inveja e a ansiedade persecutória são muito intensas. Sendo que a identificação projetiva excessiva leva uma confusão entre self e objeto, o que enfraquece o ego.

Já a idealização excessiva indica que a perseguição é a principal força propulsora. A idealização tende a desmoronar, já o objeto bom pode conservar suas imperfeições. Por isso, o objeto amado idealizado precisa ser constantemente trocado por outro, já que nenhum preencherá integralmente suas expectativas. A pessoa que era idealizada passa a ser sentida como um perseguidor e dentro dela é projetada a atitude invejosa e crítica do sujeito.

Referência: Klein, M. (1957/2006).

Coluna | Sessão de terapia Raul Barros Neto, Psicanalista, Escolas e teorias psicanalíticas Freud, Lacan, Bion, klein e Winnicot. Psicologia analítica Jung.

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