Caro amigo leitor do Centro de Notícias! Estou já há algum tempo em home office, numa choupana com internet, na praia do Prumirim, em Ubatuba, bem pertinho da Praia das Conchas, um lugar paradisíaco aonde o chão é forrado de conchas e a prainha é rodeada de rochas negras enormes que formam aquários naturais e uma laje enorme para tirar mariscos e assar na pedra esquentada por uma fogueira. Os índios chamam de “sambaqui”, um cemitério de espíritos e é semi virgem porque não dá para chegar de carro. Tem uma trilha de uns 2 kms que desanima os farofeiros mais folgados.

Como a praia está situada na Mata Atlântica, na famosa Ubachuva, são milhares de árvores capturando CO2 e exalando O2, o resultado disso é que o ar é perfumado e faz um bem danado para os pulmões e circulação. A água que bebemos é captada diretamente da mina d’água, por nós mesmos, sem cloro e nem conta da sabesp, faz um bem danado pro metabolismo e pra hidratação do cérebro. O camarão rosa enorme no mercado de peixes está custando R$ 75,00 o kilo, mas o pequeno é mais barato, dá pra fazer um belo risoto de camarão com alho poró ou um filé de linguado à milanesa recheado com camarão e catupiry.

Nos fins de semana, não temos mais o dilema de aonde ir? Shopping ou Shopping? Nos arredores, são mais de quarenta praias, cachoeiras, grutas, tribos tupi guaranis, quilombolas e a 40 kms a histórica Paraty. Deslumbrante, cheia de charme, de ilhas e de gringos, o ano inteiro. Durante a semana, as praias estão mais vazias, mas sempre tem gente e os quiosques estão abertos. Então, quando o home office é produtivo e você sente que suou a camisa e ganhou o dia, fim de tarde, um vinho branco com pastel de palmito à beira mar, esperando o pôr do sol, as estrelas e os vagalumes. O verde da mata, o barulho das ondas do mar como mantra curam das neuroses e preocupações mundanas, destravam sua inteligência e tendem a liberar o pensamento criativo.

Liberam também os hormônios, porque a mistura entre mar, praia, mata atlântica e gente bronzeada e feliz faz esquecer as agruras cotidianas trazidas pelo whatssap, face e cia. ilimitada. Se você não tem muita grana para bancar uma hospedagem mais luxuosa pelo AirBnb, você pode alugar por mês a casa de um ex-pescador, que como os peixes sumiram, ele construiu umas casinhas para turistas. Agora nessa maldita pandemia, ninguém está alugando nada, ainda mais que estamos no frio, então pela lei da “oferta e da procura”, tá tudo baratinho. Num sei o que você está fazendo aí? Trancado nesse apertamento ou nessa casa super barulhenta e cheia de vizinhos.

Vem pro home office na praia semi virgem, você não vai se arrepender, eu mesmo não sabia que era tão bão… Meus cabelos pararam de cair e esbranquiçar, com as caminhadas na praia e uma alimentação mais saudável, parei de tomar a tal da sinvastatina para reduzir o colesterol e minhas dores sumiram. Acho que minha cabeça melhorou, não estou mais com tanta preguiça para preparar aulas ou corrigir provas. Eu ficaria aqui pro resto da vida, mas como tudo que é bom, dura pouco, nosso pouco magnânimo reitor quer que a gente volte a dar aulas presencialmente a partir de outubro. Semana passada, faleceu nosso companheiro Raposão, bravo sindicalista de nossa universidade, tem gente morrendo e o insano quer que a gente volte? A guerra não terminou, acho melhor não voltarmos, precisamos de um tempo para uma terapia coletiva e institucional dessa crise toda; greve de docentes, alunos e funcionários parece ser uma boa estratégia a ser avaliada nesse momento. Bom home office pra vocês na cidade nada virgem!

Coluna | "Sentidos da vida cotidiana no Mundão" Sérgio Kodato é professor doutor da USP e Coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da USP de Ribeirão Preto, além de autor do livro: “O Brasil Fugiu da Escola: motivação, criatividade e sentido para a vida escolar.”

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