Urgente: Queimadas atingem mais de 12% do Pantanal e a tendência é piorar

A baixa umidade do ar, falta de chuvas histórica propiciam o ambiente perfeito para o acontecimento

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O pantanal enfrenta uma de suas maiores secas da história recente, sofre com o desmatamento e tem o pior período de queimadas desde o fim dos anos 90.

A atual situação do Pantanal, maior área úmida continental do planeta, preocupa ambientalistas. As queimadas já consumiram 12% do Pantanal – e tendência é piorar

De janeiro a julho deste ano, foram registrados 4.218 focos de incêndio em todo o Pantanal. Nos mesmos meses em 2019, foram 1.475 registros. Os dados são do Inpe. Para especialistas, o ano de 2020 pode se tornar o período com mais registros de fogo no Pantanal desde o início da série histórica do Inpe.

Nos primeiros sete meses deste ano, o principal rio do Pantanal atingiu o menor nível em quase cinco décadas. A chuva foi escassa. O desmatamento cresceu. Os incêndios aumentaram. E a fiscalização por parte do poder público, segundo entidades que atuam na preservação da área, diminuiu.

Especialistas consideram que não há dúvidas: o Pantanal vive atualmente a sua maior tragédia ambiental das últimas décadas. “Esse cenário de redução de chuvas no primeiro semestre do ano, o menor nível do rio (em período recente) e, principalmente, os incêndios de grandes proporções indicam isso”, diz o engenheiro florestal Vinícius Silgueiro, coordenador de inteligência territorial do Instituto Centro de Vida (ICV).

Animais em risco

Com tantas queimadas, não é difícil encontrar animais mortos ao longo de estradas e caminhos; muitos dos que resistem exigem socorro veterinário, que tardou semanas a ser disponibilizado pelo poder público.

O médico veterinário Jorge Salomão, de 36 anos, dirigiu por mais de 1.700 km para se juntar à pequena equipe de resgate animal no local. Responsável técnico por áreas de proteção, Salomão se mostra realista com a empreitada: “Não há como romantizar, achando que vamos fazer muita diferença; somos muito poucos para uma multidão de animais. O impacto será, sim, sobre esses indivíduos que conseguirmos atingir”, afirma, criticando a falta de estrutura na região. “Esperamos também mobilizar o poder público, porque é inconcebível que a região com maior biodiversidade e com incêndios recorrentes não tenha uma área de cuidados, um centro de reabilitação de animais”

O fogo

“Quem põe fogo no Pantanal é o homem. O fogo natural acontece por causa de raios, sempre associado ao período de chuvas. Como não tem chovido, então é claro que o homem é o grande causador disso”, afirma o biólogo André Luiz Siqueira.

O diretor-executivo do Instituto SOS Pantanal, Felipe Augusto Dias, avalia que muitos dos incêndios causados no bioma não costumam ser criminosos. “É aquela história, uma pessoa vai pescar, faz uma fogueira, mas não apaga direito. Como estamos num período seco, sem inundação, o fogo pode propagar mais rápido, por uma área maior. Há também o uso cultural do fogo, que muitas pessoas utilizam até para espantar mosquitos. As chamas podem ser controladas superficialmente, mas podem correr embaixo e, depois, surgem longe daquele local. São vários fatores que, somados, levam à atual situação de queimadas”, afirma Dias.

O uso do fogo para a renovação de pasto também é citado pelos especialistas entre as motivações para os incêndios no Pantanal.

Morador pantaneiro se emociona ao ver animal morto queimado que fugiu para as águas do rio

O tamanho do desmatamento

A realidade da seca no Pantanal se torna ainda mais complicada devido a uma situação recorrente na região: a expansão do desmatamento no bioma e em seu entorno.

Falta de chuva

De onde vem a água das chuvas do pantanal? Da Amazônia. É por isso que a ciência chama esse fenômeno de “rios voadores” – um fluxo de vapor de água exportado pela maior floresta tropical do mundo. A floresta amazônica hidrata toda a América do Sul e está atrelada a 70% do PIB do continente. O desmatamento ameaça esse grande ciclo d’água, se tornando um problema social, econômico, político e diplomático global.

Os rios voadores viajam pelo ar determinados, mas em forma de grandes massas de água. O fenômeno ocorre graças a uma combinação de fatores: a imensidão da riqueza biológica da floresta, a luz do sol, os ventos e a poderosa parede de 6.000 metros chamada Cordilheira dos Andes. 

De acordo com o Climatempo (assessoria metereológica) “A floresta cria a chuva, a chuva cria a floresta, a floresta cria a chuva. Uma evolução ecológica de milhões de anos”, diz Carlos Nobre, cientista da Universidade de São Paulo, famoso mundialmente por seus estudos sobre a ligação entre os biomas e a atmosfera. Em meio aos latidos de seus quatro cães ao fundo, ele explica que a floresta é muito assertiva na reciclagem de água porque as raízes são muito eficazes no transporte de água do solo para as folhas. “Quando se muda esta floresta para pastagem de gado, os pastos não são eficazes para fazer a água transpirar do solo.” 

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