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“Vós que entrais, abandonai toda a esperança”

É com essa célebre frase, caro leitor, que retomamos nossa viagem literária, lembrando que, na semana passada estávamos nas terras áridas em algum canto da Espanha. Aproveitemos então a pouca distância que nos resta e cheguemos ao nosso próximo destino: a cidade de Florença, na bela Itália. Poupe o entusiasmo o leitor desavisado se achar que vamos a algum cenário bucólico ou até mesmo romântico e voltemos à nossa frase inicial que se encontra escrita no portão do inferno. Isso mesmo, meu caro, você não entendeu errado. É justamente o ponto de partida de nossa viagem, com direito a guia e tudo o mais que o pacote oferece.

Estamos acompanhados do protagonista e também escritor Dante Alighieri e acabamos de adentrar às páginas da Divina Comédia, voltando ainda mais no tempo até os idos de 1321, ano da conclusão da obra e, simultaneamente, da morte de seu criador. Aqui mais um adendo: embora o título use a palavra comédia, nada tem a ver com algo cômico, engraçado, mas porque ao contrário das tragédias (aquelas obras em que desgraça pouca é besteira, como diziam os antigos) possui um final feliz. Essa revelação pode nutrir o caro leitor com algumas esperanças em um passeio que tem como ponto de partida um local nada agradável. Dizem por aí que o talentoso poeta levou quatorze anos para terminá-la. Pense bem. Algo inimaginável nos dias de hoje. Mas, continuando nosso passeio, temos a presença, nada mais nada menos, de um grande poeta clássico: Virgílio (admirado por Dante) que vai guiar a todos nós até Beatriz, musa eterna do florentino.

  Com o poeta latino à frente, abrindo passagem, vamos percorrendo a terra da expiação e do fogo eterno; ele, que no caso, é o símbolo da razão, conduz o poeta mostrando os nove níveis os quais compõem esse plano infernal. É uma obra toda cheia de simbolismos e que, não podemos esquecer, representa o pensamento e a cultura da Idade Média. Assim sendo, o inferno fica nos subterrâneos (sempre para baixo), forma ainda frequente de pensamento. Ao passo que se caminha, encontram-se personagens famosos da história da humanidade, associados aos mais severos malefícios referentes aos sete pecados capitais.

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É um livro que fala de tudo um pouco (uma verdadeira enciclopédia) como pode ser notado à medida que se avança. Entre suas diversas atribuições, não se deixa escapar o tom moralizante vinculado à Igreja, mas por curiosidade, boa parte das autoridades encontradas por Dante lá são papas dessa mesma Igreja. Você já viu que não escapa ninguém. Até porque nosso protagonista representa o homem comum, que necessita seguir o caminho do bem e da ética, porém, como qualquer um nesse mundo, não é passível de dúvidas e se vê frequentemente tentado.

As imagens vistas nessa primeira parte da viagem (são três) assumem um tom que aterroriza e choca. O poeta não poupa descrições sobre as expiações. Daí nasceu a palavra “dantesco” com o significado de horror de extrema grandiosidade como Castro Alves (o poeta dos escravos) aplicou com maestria em seu poema “Navio negreiro” quando diz: “Era um sonho dantesco… o tombadilho” ao escrever o show de horrores que era o tráfico de escravos. Passa-se agora para o segundo plano: o purgatório. Aqui as almas ainda tentam fazer algo para mudar sua condição de vida, buscando corrigir seus erros e desprender-se dos maus hábitos (pecados). É a famosa “segunda chance” que aos habitantes do plano anterior não foi permitida.

Nessas duas etapas da viagem se fosse para escolher uma trilha sonora, com certeza, a “Sinfonia Dante”, concluída pelo compositor Franz Liszt em 1864, cai como uma luva. Aconselho o leitor a aventurar-se na audição dessa obra magnífica que consegue descrever em notas o clima denso e tenso proposto no livro. Chegando enfim à terceira etapa de nossa viagem, encontramos ela: a doce Beatriz. Despedimo-nos de nosso poeta guia para, agora com ela, seguirmos a caminhada. Ela é o símbolo da fé, por isso foi elevada ao status de santa por seu admirador terreno, portanto a alma ideal para conduzir nosso viajante em direção ao paraíso.

Sabe-se que Beatriz era a musa do poeta. Sim, caro leitor, uma mulher de carne e osso e, assim como a Monalisa do quadro de Da Vinci, suscita as mais variadas cogitações acerca de sua verdadeira identidade, contudo ninguém bate o martelo. Inclusive, em relação a essa paixão, o poeta Olavo Bilac fez um belo soneto que possui, como título, o primeiro verso da Divina comédia: “Nel mezzo del camin”, tendo como tema a tristeza do poeta pela partida da amada.

Não podia deixar de dizer que esse poema épico… Ah! Desculpe, caro leitor, mas esqueci de avisar que o livro todo é feito em forma de poema e, como se não bastasse, simétrico, ou seja, todos os versos têm o mesmo número de sílabas poéticas e esquemas fixos de rimas (talvez essa última informação justifique os quatorze anos de construção). Como ia dizendo, por mais absurdo que pareça tal viagem, desde o começo até o fim, Dante trata da condição humana, sobre cada uma de nossas escolhas. Por mais que alguns possam achar uma obra impregnada de teologia e dogmas, ela acaba chegando ao mesmo ponto: o que o homem faz de sua vida.

Para Dante, continuamos a escolher nosso caminho. Esse livro é uma peregrinação da alma, do homem em busca de sua conversão, com o aviso de que necessitamos de tomar uma atitude e saber fazer nossas escolhas, lembrando que a omissão também é um pecado, como o poeta nos diz em um trecho: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.” Que possamos escolher com sabedoria a nossa própria jornada, sabendo que são nossos passos que constroem a estrada do nosso destino.

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

1 COMENTÁRIO

  1. Ótimo texto, Marcio. A “Sinfonia de Dante” podia ser uma indicação logo no início, realizando a leitura escutando-a. Fiz este exercício e ficou muito bom.

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