“A harmonia do corpo e da alma… Nós, na nossa cegueira, separamos estas duas coisas para inventar um realismo vulgar e uma idealidade vazia!”

Seja bem-vindo, caro leitor. O tempo não para. Dirija-se até a poltrona reservada, acomode-se à sua maneira porque vamos seguir viagem mais uma vez. Prepare-se para mais um salto no tempo e no espaço, pois nosso itinerário jamais segue em linha reta. Em um verdadeiro ziguezague, seguimos pelo velho continente em nossa turnê literária. Vamos partir imediatamente da conturbada Tchecoslováquia com destino à melancólica Londres, em plena Era Vitoriana (1890), para testemunharmos mais um drama humano.


Estamos chegando no exato momento em que o sensível artista, o pintor Basil Hallward está dando início a uma nova obra de arte, utilizando-se de Dorian Gray, seu nobre anfitrião, como modelo de corpo inteiro para a tela que o pintor considera ser um novo conceito de arte. Dorian é um jovem, dono de uma beleza estonteante, a qual chama a atenção de qualquer pessoa que o avista. É aí que entre em cena o amigo do pintor, Lord Henry, um aristocrata que adora emitir sua opinião sobre os mais diversos assuntos, que não deixa de reparar na beleza incomum do jovem rapaz. Como boa parte dos jovens, ainda em processo de formação acerca de sua condição perante ao mundo, Dorian é uma pessoa facilmente influenciável, além do mais perante um homem experiente e vivido como Lord Henry.


O tema principal da conversa entre os três acaba sendo a beleza e a juventude como uma combinação perfeita que oferece ao seu detentor um passaporte irrecusável para adentrar aos mais diversos prazeres que o mundo pode oferecer. Prazeres estes que não estão ao alcance de todos, porém totalmente possível ao jovem Dorian. Durante o diálogo, ele começa a vislumbrar um novo mundo de possibilidades e, convencido pelos dois homens de sua magnífica beleza, teme que esta um dia simplesmente desapareça, verdade mais do que certa, não é, caro leitor? Afinal, se tem alguém que jamais mente, esse é o tempo.
Diante de tal temor, ele faz um desejo, do fundo de sua alma: que o quadro possa envelhecer no seu lugar, para que ele conserve sua beleza para sempre. Pergunto, agora, a você: quem nunca teve um desejo assim, mesmo que passageiro, um dia, olhando o próprio retrato? Contudo, o desejo do jovem não teve nada de superficial ou momentâneo. Não, meu caro. Atrevo-me a dizer que o pobre rapaz jamais desejou algo assim, com tamanha intensidade. Nesse momento, acredito que inconscientemente, Dorian firma um pacto. Isso mesmo, eu não me enganei não. A partir de agora, que a tela de Basil absorva toda a passagem do tempo no lugar do belo corpo dele. Gostaria de fazer um aparte: a palavra pacto significa acordo entre duas partes. Nesse momento você pode estar imaginando: “Quem seria a outra parte no acordo com Dorian?”. Ah! Caro leitor, nem tudo o livro nos responde…, mas eu e você podemos imaginar que não se resume a alguém (ou algo) com boas intenções, não é? Até porque, nas narrativas, sejam elas populares ou clássicas, a palavra pacto acaba por referir-se, no fim das contas, a alguma entidade de natureza demoníaca.


A partir de então, Dorian passa a curtir a vida intensamente, em seu mais plano significado, desfrutando da dádiva (ou maldição) de não envelhecer nunca, um só dia ao menos. É quando conhece Sibyl Vane, uma atriz shakespeariana que se apresenta em um teatro de aspecto um tanto quanto sombrio. Ela, que só tivera olhos para a carreira e para o palco durante toda a sua vida, agora vê desabrochar o amor por alguém: o “príncipe formoso”, como ela costumava chamá-lo. Ele corresponde ao seu amor, porém, em uma primeira oportunidade, quando ela faz a escolha pelo amor do jovem, desistindo de sua carreira, por entender que não havia espaço para duas paixões tão intensas, ele a despreza e humilha, alegando que a sua atuação era a beleza que ele via nela. Extremamente cruel, Dorian sai da vida de Sibyl. Ao chegar a sua casa, observa o quadro e, para sua surpresa, percebe nele um sutil sorrido e crueldade. Sim, caro leitor, o quadro não só absorvia o envelhecimento do jovem, mas também todos os seus pecados, isentando-o de qualquer consciência moral. Ele tenta retomar seu relacionamento com a atriz quando recebe a notícia de que ela havia cometido suicídio tomando uma espécie de ácido. A partir de agora, o jovem pautará sua vida somente pela luxúria, no mundo das aparências, em uma vida puramente libertina.


Disse Chaplin: “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”. Vindo de um homem cuja arte, sensível e inteligente, encantou a gerações (e continua encantando) não pode tratar-se de um engano. Acho que não. Creio que o equívoco reside na interpretação sobre o conceito de beleza. Eis nosso ponto de partida de hoje: a que beleza se referia Chaplin? Seria a mesma que Dorian quis conservar consigo? Antes de tudo, gostaria e salientar ao leitor que não sou, de forma alguma, contra a beleza. Jamais. O que quero colocar em evidência é a importância que se dá a ela em nossa sociedade e, consequentemente, como ela se faz presente.


O personagem Lord Henry é uma alegoria do hedonismo que, em poucas palavras, é uma filosofia de vida que defende o prazer como o bem supremo, portanto, uma finalidade que não possui um código de ética, não se prendendo a moral alguma. É o que passa a viver o jovem Dorian. Quando a busca pelo prazer passa a ignorar qualquer diretriz, viver torna-se uma aventura perigosa. E o que isso tem a ver com a beleza? Na verdade, tudo. Aqui falo de uma beleza unicamente externa. Aparência e nada mais. Aquela beleza quer de atributo passou a meta exclusiva. Aquela mesma que acabou fazendo o pobre Narciso (mito grego indispensável para esta reflexão) apaixonar-se por si mesmo a ponto de perder a própria vida na beira do lago. Ah! Que mito tão cruel e ao mesmo tempo tão real! É por isso que existe o termo “narcisista” que faz todo o sentido aqui.
Vivemos uma nova ditadura: a ditadura da beleza, difundida por redes sociais, aplicativos diversos, programas de televisão e pseudocelebridades. Presenciamos a época do corpo perfeito e sarado, das medidas enxutas e exatas, das meninas que sonham em ter o corpo da boneca Barbie (e por que não também loiras e de cabelo liso?). Assistimos ainda a um momento em que as pessoas querem alcançar o “padrão de beleza” (que sempre achei ser um valor subjetivo) a todo e qualquer custo, inclusive, alguns, movidos pelo desespero inconsciente, buscam por soluções mágicas (procedimentos cirúrgicos e fórmulas mirabolantes) – cabe aqui lamentar, com grande pesar, as tantas mulheres que perderam suas vidas fazendo lipoaspiração ou comprometeram sua saúde colocando próteses de algum tipo. Existe até uma doença catalogada como síndrome de Dorian Gray, em que a pessoa tem medo de envelhecer por causa da aparência (conheço tanta gente que oculta a própria idade – só não entendo o sentido).


Oscar Wilde, em sua obra, faz uma pergunta a nós todos leitores: “Existe um limite na busca pelo belo?” Em seu pacto, Dorian pagou pela beleza eterna com a sua própria alma. Ele vendeu tudo que tinha para ficar somente com ela. Em um mundo de selfies e posts, curtidas e likes, o narcisismo encontra-se em um farto banquete, em uma longa mesa, onde tantos tomam seus lugares, tendo a vaidade como prato principal. Assim termino minha reflexão com um trecho da canção do inteligente Zeca Baleiro: “Mundo velho e decadente mundo / Ainda não aprendeu a admirar a beleza / A verdadeira beleza, a beleza que põe mesa / E que deita na cama, a beleza de quem come / A beleza de quem ama / A beleza do erro, do engano, da imperfeição”.

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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