“O sofrimento e a dor são sempre obrigatórios para uma consciência ampla e para um coração profundo”.

​Seja muito bem-vindo, caríssimo leitor. Mais uma vez estamos nós aqui, prontos para decolar nessa impávida aeronave chamada literatura. Vamos partir agora mesmo, despedindo-nos, sem delongas, da França com todo o seu glamour, para partir para a distante e colossal Mãe Rússia. Isso mesmo, meu companheiro de viagem. Vamos cruzar os ares e chegarmos, enfim, à imponente nação que está situada nos limites do continente europeu, invadindo Ásia adentro. Podemos, mais uma vez, acessarmos a nossa “playlist” de viagens (já estava com saudades) e tocar a música “Destruição” de Brayan Arantes, parte da trilha sonora do filme “Crime e castigo” de 2020.

​Após aterrissar na bela São Petersburgo, fundada em 1703, por Pedro, o grande. Dizem que sua intenção ao criar a cidade, que chegou a ser capital imperial, era de dar ares de civilização europeia à sua nação. Agora deixemos a História de lado para voltarmos ao nosso itinerário. Aqui vamos encontrar o nosso protagonista: o jovem Raskolnikov. Sinto muito, meu caro leitor, mas os russos raramente possuem nomes mais simples que esse. Ele é um ex-estudante de Direito que, devido a necessidades mais básicas (no caso a sobrevivência da espécie) para não dizer elementares, foi forçado a abandonar seus estudos. Assim sendo, este jovem passa por grandes dificuldades, em um considerável grau de pobreza.

​Angustiado com a própria situação, busca uma forma de realizar algo importante, alguma maneira de superar a miséria em que vive, sem grandes perspectivas. Nosso “herói” – fazendo uma pequena referência aos protagonistas dos romances românticos – (desculpe meu arroubo de ironia) carrega consigo uma pequena teoria que busca colocar à prova; a divisão dos homens em dois tipos: ordinários e extraordinários. Estes últimos são aqueles a quem a sociedade livra de seus horrendos crimes porque suas ações foram maiores que a ética de um povo. Sempre tem em mente uma lista de grandes assassinos perdoados pela História. Dessa forma, ele tentará provar sua superioridade moral.

​Agora o caro leitor deve estar se perguntando: “De que forma ele fará isso?” Ora, meu caro, eu estou aqui para responder a você. Ele irá cometer um crime do qual acredita sair ileso. Raskolnikov vive de aluguel em um quarto pertencente a uma agiota. Nenhum dos meus leitores seria inocente o suficiente para não imaginar que pedir dinheiro emprestado a ela será nada mais que uma questão de tempo. Também não haverá nenhuma dificuldade em imaginar que ele não conseguirá pagar sua divida com ela. Estamos nos aproximando de nosso conflito principal (lembrando que todo romance necessita – e muito – de um conflito). Nosso personagem começa a nutrir um certo ódio pela senhora que ele julga uma péssima influência, além de testemunhar que a mesma maltrata a própria irmã. Cabe aqui lembrar que o agiota sempre foi uma persona non grata na literatura. Basta recordar do onzeneiro (por causa da taxa de juros a 11%), personagem icônico do “Auto da barca do inferno”, de autoria do imperdoável crítico Gil Vicente, o qual chega ao juízo final munido de uma mala abarrotada de dinheiro.

​Seguindo tal raciocínio, Raskolnikov entende que dar um fim a ela seria um grande favor a humanidade, como um crime justificável, partindo da famosa máxima de Maquiavel: “os fins justificam os meios”. Ele vende tudo que pode para honrar seus compromissos, porém continua devendo a ela, entrando em profundo desespero. Cada vez mais a morte dela parece ser o único caminho para trazer a solução aos seus problemas. Eis que após planejar meticulosamente tal assassinato, ele enfim o comete, a sangue frio. Contudo, não contava com a presença da irmã da vítima que acaba o surpreendendo e virando uma testemunha. Portanto, ela não pode sobreviver. Aqui o protagonista comete mais um assassinato, desta vez, pelo mais instintivo impulso. Acabamos de chegar à primeira parte do título do livro: crime.

​Após matar as duas irmãs e apropriar-se das inúmeras joias que a agiota tinha em seu poder, o jovem parece finalmente resolver os seus problemas financeiros. Entretanto, passará a ser perseguido por um caçador implacável: a consciência. A morte da irmã (para ele uma vítima da outra) faz cair sobre ele um grande pesar. Agora, caro leitor, chegamos à segunda parte do título: castigo. Nosso personagem acaba tendo febres e delírios, sendo atingido pelo golpe duro do remorso, condição que piora quando descobre que a policia achou um bode expiatório para levar a culpa, ou seja, um inocente irá pagar por seu crime em seu lugar. Nessa hora desfazem-se todas as suas certezas e teses anteriores. Isto tudo m lembra muito bem o personagem Luís da obra “Angústia” do fantástico Graciliano Ramos, personagem que descobre, após matar um rival, que aquilo que ele considerava como um ato de justiça, na verdade não passou de simples vingança, sendo corroído pelo remorso ao longo do livro. Fico aqui pensando: seria apenas uma feliz coincidência literária ou teria Graciliano Ramos conhecido Dostoievsky? 

​Caro leitor, mergulhamos, agora, em nossa realidade, claramente estampada nesse romance, que muito tem a explorar do ser humano. A grande pergunta que ele nos faz é: todo crime merece um castigo? Raskolnikov representa tantos seres humanos, espalhados por esse mundo sem fim, anônimos sem voz, sem rosto, sem vez que, sucumbidos por um desejo pessoal, criam uma pseudojustiça, caindo na tentação de ser juiz e executor das próprias sentenças, como nos versos da música “Desordem” da banda nacional Titãs: “Não sei se existe mais justiça / Nem quando é pelas próprias mãos”, conduzindo-os ao abismo. Tantos homens e mulheres como os personagens de Dostoievsky e Graciliano acham que podem ser juízes e algozes, ao mesmo tempo, prestando o serviço de defender a sociedade, situação explorada (muito bem – diga-se de passagem) pelo núcleo de heróis urbanos da Marvel, com destaque para o Demolidor, tratando da tênue linha que separa o herói do justiceiro.

​Esse livro explora a relação do individuo com a sociedade que o cerca, como uma complexa teia na qual todos nós estamos enredados. Nosso protagonista só vai perceber isso depois de consumado o seu “ato de justiça” e será engolido pelo binômio causa e consequência, defendido exaustivamente pelos escritores realistas e naturalistas, como já pudemos presenciar em “Madame Bovary”. Raskolnikov chega até a pensar na ideia de que se é possível atingir a salvação por meio do sofrimento, como a questão das punições e até mesmo das penitências religiosas que visam à purificação, o que nos leva a precipícios ainda mais fundos como o estrutura do sistema prisional e a defesa da pena de morte.   

​Ah, caro amigo leitor, este livro me trouxe muitas indagações e, para falar a verdade, quase nenhuma resposta. Até porque, muitas vezes, são as indagações que fazemos que realmente nos norteiam. No entanto, talvez possamos encontrar algum alento na frase do filósofo Spinoza: “Diante do drama da vida, não se deve chorar nem se desesperar, muito menos odiar. Necessita-se somente compreender”.

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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