“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semirreal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Seja bem-vindo a bordo para mais uma de nossas viagens. Aperte os cintos e prepare-se para mais uma de nossas modestas aventuras pelas páginas da literatura universal. Deixemos agora o Império Austro-Húngaro, palco de uma narrativa das mais inverossímeis possíveis, para partirmos em direção à antiga Tchecoslováquia. Antes que o amigo leitor o diga, bem sei que tal nação não mais existe, pois, como tantas outras, foi secionada e distribuída como um bolo de chocolate o qual se reparte entre duas crianças para não haver briga. Acontece que sou um saudosista e adoro usar os nomes da época. Vamos nos encaminhar para a capital Praga, na primavera de 1968(mas o livro foi feito em 1982 e publicado em 1984 – prefiro não entrar em detalhes). Isto é o mais próximo que chegamos até então de nossos tempos atuais.

​Hoje, por falta de um protagonista, teremos, na verdade, quatro deles em nossa narrativa. Comecemos pelo principal: Tomas, um cirurgião, intelectual, solteiro convicto, que faz das mulheres a sua grande e única diversão; um verdadeiro seguidor do lema “carpe diem”. Assim, ele segue sua vida até que, num certo dia, seus olhos encontram os olhos de Tereza: uma garçonete de olhar infantil e de alma frágil. Após essa colisão de olhares, ambos se enlaçam, pois Tereza, de natureza ciumenta, reflexo de sua insegurança, pretende tomá-losomente para si. Porém, já é de se esperar que seja um tanto quanto difícil para Tomas refrear seus instintos e desejos por outras mulheres e que, para ele, quebrar os grilhões da monogamia seja apenas uma questão de tempo e oportunidade.

​É agora que introduzo ao amigo leitor, Sabina: uma mulher notável, uma artista transgressora, figura arrebatadora que, diferentemente de Tereza, age conforme as próprias crenças, tendo, como única lei, a liberdade, pouco ou nada se importando com a visão que a sociedade dela venha a fazer. Eis a amante perfeita para o nosso Don Juan em questão. Inicia-se, dessa forma, um triângulo amoroso. De uma certa maneira, as duas mulheres na vida de Tomas passam a representar o peso (Tereza) da mulher individual e idealista que se prende ao casamento como um náufrago a sua tábua de salvação; e a leveza (Sabina) da mulher que não se agarra a absolutamente nada, vivendo um dia de cada vez. Eis, querido leitor, a grande e a maior das dualidades que premeiam tal enredo.

​Não menos importante – aliás, totalmente intencional – ao meu modo ver, é o período histórico em que as personagens situam-se: a Guerra Fria. A União Soviética (aqui vai mais um bolo a ser fatiado no futuro, com generosas porções) invade e domina a Tchecoslováquia como um território. Assim sendo, a liberdade passa a ser uma constante nas discussões e reflexões das pessoas, o que não seria diferente para os nossos personagens. Como consequência, Sabina sente-se sufocada pelo fardo da opressão e vai para Genebra para respirar ares mais leves e descontraídos. Tomas e Tereza, um pouco mais tarde, veem-se obrigados a mudar-se para a Suíça devido a problemas que ele enfrenta com a censura por causa de um artigo escrito. 

Lá, o triângulo volta a ser constituído, porém, agora, teremos a formação de um quadrilátero com o surgimentodo quarto protagonista pelo qual o leitor já deveria estar esperando: Franz, um homem que costuma refugiar-se em seu próprio intelecto para não se apegar a ninguém; mas que, como Tomas, acaba atingido pelo turbilhão que é Sabina. Assim como Tereza, Franz vê na relação amorosa uma zona de conforto, uma espécie de refúgio em que possa se abrigar do mundo. O leitor deve ter percebido que dentro da dicotomia proposta pelo autor, Tereza e Franz situam-se numa margem; Tomas e Sabina, na margem oposta.

Este livro, caro leitor, tem de tudo um pouco: filosofia, história, amor, arte, entre tantas outras discussões, pois é dessa matéria que são feitos os clássicos: a infinidade de temas que trazem consigo jamais terão suas discussões encerradas e, com nosso sagaz Milan Kundera não será diferente. Assim como foi com Kafka, Dostoiévski e outros que já passaram por aqui, sua obra é uma fonte inesgotável de reflexões acerca dessa nossa vida.

Os dois celebres casais desse romance partem em busca de um sentido para as suas vidas (atitude comum entre os meros mortais), cada um à sua maneira, usando o amor como possível medida. Tomas tenta fazer Tereza feliz, contudo não consegue ir contra a própria natureza, lembrando-me do naturalismo que procura compreender o comportamento do protagonista no livro “O crime do Padre Amaro” de Eça de Queirós. Por outro lado, cabe-nos lembrar aqui a frase eternizada em “O pequeno príncipe”: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Por isso, o autor utiliza-se desse sentimento para demonstrar a tentativa das personagens de encontrarem uma referência como norte.

Este livro fala, para mim, acima de tudo sobre as escolhas que temos de fazer em todos os momentos de nossas vidas, como na frase do livro que abre nossa viagem de hoje. Elas fazem de nós o que somos e, como diria Fernando Pessoa: “Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu passado; Este é o cadáver. Se a certa altura eu tivesse me voltado para a esquerda, ao invés que para direita; Se em certo momento eu tivesse dito não, ao invés que sim; Se em certas conversas eu tivesse dito as frases que só hoje elaboro; Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro seria insensivelmente levado a ser outro também.” Não é possível voltar, caro leitor, nem imaginar como seria. O que vale é sempre o agora e, a partir dele, não há hipótese para o passado.

​Após ler esse livro, fiquei a pensar: estamos sempre nos sentindo presos a essa tal dualidade. A vida nos apresenta dois caminhos a seguir. Como revela a canção de Lulu Santos: “Não existiria som / Se não houvesse o silêncio / Não haveria luz / Se não fosse a escuridão / A vida é mesmo assim / Dia e noite, não e sim”, provando que a dualidade faz parte de nossa natureza, como mais à frente ainda completa: “Nós somos medo e desejo / Somos feitos de silêncio e som”. Tereza e Franz escolheram o fardo do peso, presos com os pés no chão, abraçaram-se a rotinas e aos velhos caminhos, para eles seguros; enquanto Tomas e Sabina optaram pela leveza do ar, soltos a voar, buscando na liberdade o verdadeiro sentido de suas vidas. 

​Pense comigo, caro leitor: e se Kundera quisesse nos dizer, por trás de tudo isso, por entre os extremismos da repressão e da libertinagem, que a solução é buscar o equilíbrio, que você não precisa necessariamente escolher entre um e outro, não. O que se deve fazer é buscar o comedimento, o que me faz lembrar do médico e físico suíço Paracelso (séc. XVI) cuja célebre frase uso para encerar esse artigo: “A diferença entre o veneno e o antídoto está na dose”.       ​

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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