O CAMPO, OCTAVIO (1943). "Las visiones del Quijote"

Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é utopia, não é loucura, é justiça

É com uma das falas mais lúcidas de um dos maiores símbolos da loucura da literatura universal que começo minha viagem literária de hoje (prometo retornara ela no momento oportuno). Caro leitor, aperte seus cintos pois estamos chegando à região espanhola de La Mancha, no ano de 1605. E o que fazemos aqui, distantes no tempo e no espaço? Vim apresentá-lo a um dos mais conhecidos, senão o maior de todos, personagens da literatura universal: o fidalgo Dom Quixote de La Mancha.

Verdadeiro leitor inveterado das novelas de cavalaria, gênero literário predominante em sua época, em especial na península Ibérica, nosso protagonista acima citado, cujo nome real era Alonso Quijano, após incontáveis leituras, acabou mergulhando de cabeça no universo fictício do mundo medieval e de lá não conseguiu retornar. Batizou-se com seu novo nome de cavaleiro errante e passou a uma vida de aventuras, as mesmas que tantas vezes lera nas novelas que preenchiam as estantes de sua casa.
O cavalo pangaré transforma-se no corcel Rocinante, uma bacia na cabeça torna-se o elmo de Mambrino e a camponesa da vizinhança vira a bela e nobre donzela Dulcineia. Tomado pelos elementos de idealização que retornariam no Romantismo, nosso herói singular parte para a batalha. Acredite em mim, estimado leitor, nem mil artigos nesta coluna seriam suficientes para descrever as inúmeras proezas e aventuras vividas por ele, também não é esse o objetivo dessa coluna. Até porque, para ser bem sincero, nada (guarde bem isso!), nada pode substituir a leitura integral de um clássico.

Um dos encantos dessa obra é a observação de um homem que trocou a realidade pela fantasia, o cotidiano pelo sonho. Sempre acordado, nosso herói recusa a despertar para o real, colocando-se em maus lençóis pelos desvarios aos quais chama de aventuras e, retomando à nossa frase inicial, enxerga sua missão de cavaleiro como a de qualquer outro homem neste mundo: a defesa da justiça. Justamente daí vem a simpatia por ele de tantos leitores como eu, que passam a torcer por seu sucesso em um possível final feliz. Nosso cavaleiro busca a gloria, sim, mas por meio da manutenção de princípios. Isso nos põe a pensar: seria mesmo ele totalmente louco?

Uma das mágicas feitas pela literatura pode ser encontrada nesse livro, o qual o autor pretendeu usar como crítica ao gênero de cavalaria, que predominava em sua época como, segundo o mesmo, uma ficção exagerada que deturpava ao extremo a consciência da realidade. Acontece que nenhum autor tem controle sobre sua obra a partir do momento que ela sai de suas mãos e chega até o leitor. Nosso bravo Dom Quixote abriu um leque de releitura e interpretações a respeito da visão que se tem da realidade. Ao redor das milhares de análises que já se fizeram, notamos palavras como loucura, alienação, utopia, idealismo e muitas outras.

Ilustração Pablo Picasso



Em uma das suas falas: “Sonhar o sonho impossível,/ Sofrer a angústia implacável,/ Pisar onde os bravos não ousam,/ Reparar o mal irreparável,/ Amar um amor casto à distância,/ Enfrentar o inimigo invencível,/ Tentar quando as forças se esvaem,/ Alcançar a estrela inatingível:/ Essa é a minha busca”, enxerguei a música “Sonho impossível” uma versão de uma canção francesa, de autoria e Chico Buarque e Ruy Guerra (mais tarde releia esse trecho enquanto ouve essa bela canção, seja na voz do saudoso Altemar Dutra ou da esplêndida Maria Bethânia) e me ficou mais claro o idealismo com que nosso guerreiro se envolve. Mesmo perdendo o senso da realidade, ele jamais abandona o ímpeto de lutar, lutar por algo que valha a pena, que faça sentido. Não se trata de um sonho egoísta ou mesquinho, mas um sonho que abarca um mundo todo. Um mundo que gostaríamos que se concretizasse.

Dom Quixote faz o perfil do herói solitário, mas, para sua penosa diligência conta com a ajuda de seu escudeiro Sancho Pança, uma pequena parcela de juízo ou senso encarnado em um homem simples e prático. É como uma consciência que o tenta fazer colocar os pés no chão novamente e fazê-lo enxergar o quanto pode perder com essa sua louca busca. São dois opostos que se completam nessa jornada: enquanto esse não enxerga a realidade, aquele não se permite sonhar jamais.

A mais emblemática passagem do livro se dá quando o paladino da justiça confunde os moinhos de vento, tão comuns em sua região, com verdadeiros gigantes, partindo em ataque, mesmo sob as advertências vazias de seus fiel escudeiro; episódio eternizado em telas de pintores como Salvador Dali e Pablo Picasso e, mesmo distante, na letra da música homônima do grupo Engenheiros do Hawaii no trecho: “Por amor às causas perdidas/ Tudo bem, até pode ser/ Que os dragões sejam moinhos de vento” (também vale a pena ouvir). Vem deste eterno protagonista o adjetivo “quixotesco” que caracteriza a pessoa utópica e sonhadora, inclusive deu vida ao fantástico personagem Policarpo Quaresma, da obra de Lima Barreto.

Nossa viagem de hoje termina aqui, com a minha pergunta: cá entre nós, amigo leitor, quem nunca teve seus lampejos ou seus surtos quixotescos? Quem de nós não teve um sonho classificado como impossível ou simplesmente absurdo por outras pessoas? Que nunca desejou mudar a realidade em que vive ou até mesmo querer fechar os olhos para o mundo que nos cerca e sonhar, mesmo que por uma fração de segundos, com uma outra vida? Quantos já não foram chamados de tolos ou loucos por almejar algo considerado impossível pela maioria? Despeço-me desejando, de coração, que nenhum de nós deixe apagar aquela centelha de Dom Quixote que resiste bravamente dentro de nós. Salve, Dom Quixote! Herói dos sonhadores.

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

4 COMENTÁRIOS

  1. Ótima maneira de apresentar um clássico. Ler esta coluna me despertou muito interesse pelo Dom Quixote.
    Que venham mais análises sobre grandes obras deste grande escritor.

  2. Maravilhoso!!! Várias reflexões e viagens realizei através do texto. Parabéns e grata pela partilha. 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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