O título deste texto reflete a primeira ideia que vem à mente, quando o assunto é educação sexual. Temos uma sociedade que prefere a omissão ou a deseducação sexual, a assumir a responsabilidade que deve ser da família e da escola: falar sobre sexo!

Recentemente, maratonei (sim, é esse mesmo o termo usado) assistindo às três temporadas da série Sex Education, que é sucesso na plataforma Netflix desde 2019. Pode ler tranquilamente esta coluna se você ainda não assistiu, pois não haverá spoiler.

A série trata da rotina da Moordale High, uma escola nada fictícia se considerarmos os dramas apresentados pelas personagens adolescentes que desfilam suas crises existenciais recheadas de dúvidas sobre sexo, identidade de gênero e relacionamentos afetivos.

Embora as principais personagens sejam da faixa etária em torno dos 17 anos, a série revela que os dramas vividos pelos adolescentes também são presentes na vida de adultos mal resolvidos que se escondem na autoridade de pai ou mãe, professores e diretores escolares.

Enquanto lidam com as esquisitices da libido, os adolescentes da série ainda precisam sobreviver à hipocrisia de uma sociedade reacionária que acredita não ser a escola o lugar ideal para a educação sexual e, por isso, reprimem toda e qualquer iniciativa nesse sentido.

No Brasil, Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar mostra que 27% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental já tiveram relação sexual. Mesmo assim, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, publicada em 1996, não define parâmetros para a educação sexual nas escolas.

Ainda estamos sob o domínio medieval do “menino veste azul e menina veste rosa”, submetendo o assunto “sexo” ao capítulo dos pecados mortais.

Na opinião da especialista em educação sexual Lena Vilela, “educação sexual não é falar de sexo. É também, dependendo da idade e com quem você vai falar, preparar a criança para a questão do abuso sexual, que é importante. A cada ano você trabalha determinadas questões ligadas à sexualidade e ao comportamento para que essa criança entenda melhor o que está acontecendo com ela”.

Os pais dos adolescentes de hoje, que viveram sua adolescência nas décadas de 80 e 90, também foram abandonados quanto à educação sexual, com raríssimas exceções, e ainda sofreram em tempos muito mais preconceituosos.

Fácil, então, perceber que os adolescentes de hoje são filhos de adultos que guardam em si crianças e adolescentes maltratados e mal resolvidos.

A série Sex Education retrata muito bem essa realidade, trazendo diretores escolares com traumas de infância e dificuldades para engravidar, além de pais e mães que reproduzem em seus filhos traumas e crenças não tratados em sua própria vida.

Em Sex Education também está a autêntica simplicidade, tanto no discurso quanto na estética. A produção não tem medo de retratar aventuras sexuais do modo mais real possível, sem esconder a esquisitice e o desconforto, criando cenas raramente vistas de modo tão cru. Não idealizar a atividade é talvez o elemento que mais aproxima a produção de seu público, e cria um potencial de relacionamento importante e imediato. 

Tive a sorte de assistir à série acompanhado de minha esposa e minha filha, de 15 anos de idade. Não recomendo para menores de 14 anos. Todos aprendemos muito, nos emocionamos e reconhecemos a importância de acolhermos uns aos outros em suas dores e dúvidas.

Se você acha inapropriado falar sobre sexo com seus filhos, fique tranquilo, alguém fará no seu lugar.

Coluna | Fala sério Advogado especialista em Direito Público, Licitações e Contratações Públicas; jornalista político, idealizador e apresentador do programa Fala Sério, veiculado pela Rádio Bandeirantes e pelas emissoras TV Thathi e TV Mais, em Ribeirão Preto/SP.

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