“Não disse que não é amor, definitivamente é, mas eu sei que é efêmero e que o tempo há de mudá-lo como o inverno muda as árvores, e mesmo que eu te amasse com todas as forças do meu corpo nem em cem anos poderia te amar tanto quanto te amei em um único dia.”

Seja bem-vindo, caro leitor! É com muito prazer que o recebo, mais uma vez, para embarcarmos em uma viagem ao mundo da ficção (que nos traz de volta à realidade), percorrendo as páginas dos mais interessantes clássicos da literatura que a mente humana já possa ter produzido. Após termos vivido um período de duas leituras em pleno voo, hoje voltaremos a pôs os nossos pés no chão. Isso mesmo, meu caro. Vamos nos dirigir à Inglaterra, mais precisamente aos morros nas regiões de Yorkshire, no ano de 1847. Vamos, sem delongas, acessa a nossa playlist e viagem para a música tema do livro “Wuthering Heights” seja, para a minha geração, na icônica voz de Kate Bush (1978), ou, para as gerações mais recentes, na voz de André Matos, do conjunto Angra (1993). 

​Em todas as nossas viagens, acredito ser essa a primeira vez que iremos adentrar a uma história de amor como núcleo de um romance. Demorou, mas o Romantismo chegou em sua forma mais densa e tensa. Se algum leitor desavisado estiver pensando que estará diante de “uma historinha água com açúcar”, garanto que irá se arrepender (pode trocar por surpreender se achar um termo agressivo). Mas, comecemos então com o fato gerador do conflito que é quando o senhor Earnshaw retorna de uma das suas viagens trazendo consigo um menino, um órfão que será criado junto aos seus filhos: Catherine e Hindley. Enquanto o menino, vê, no recém-chegado, um rival que irá roubar a atenção de seus familiares; a irmã afeiçoa-se a ele de imediato. Essas duas relações, pautadas no amor e no ódio, intensificam-se com o tempo. Os dois apaixonam-se perdidamente, mas, com a morte do casal Earnshaw, Hindley passa a ser o verdadeiro dono de tudo e, passa a despejar todo o seu desprezo pelo irmão adotivo, sujeitando-o aos mais humilhantes serviços, além de privá-lo de ver a irmã. Heathcliff passa da condição de filho a servo, mas ainda suporta muitas coisas por Catherine.

​Esta, por questões estritamente financeiras, acaba por arranjar matrimônio com um homem de posição social bem melhor que o irmão, o que acaba por piorar o seu jeito, agora muito amargurado e rude, como consequência o tratamento que recebe. Após a notícia do casamento de Catherine, ele não tem mais motivos de permanecer onde está, decidindo partir pelo mundo afora. Mais tarde, contudo, ele retorna, como um homem rico e bem sucedido, em outras condições sociais, com único desejo: vingar-se daqueles que o privaram e seu final feliz com Catherine. Ele não encontrará limites para satisfazer esse seu capricho, colocando o irmão adotivo (Hindley) e o marido dela, seu rival (Edgar) como alvos permanentes em sua sede de vingança. Se o caro leitor, ficar ávido por maisdetalhes ou informações, há apenas uma coisa a se fazer então: leia o romance. Quanto a mim, paro por aqui, segundo aquele meu velho princípio já exposto aqui: não revelar o final da trama. Asseguro a você que muitas reviravoltas estão por vir nessa trama e que suas consequências serão devastadoras.

​Caro leitor, há uma infinidade de abordagens a respeito do amor. Temos uma vasta quantidade de romances que o exploram. Lembrando que foi assim que o gênero romance, tal como o conhecemos hoje, começou: tratando de histórias de amor. Daí é comum encontrar a confusão que alguns leitores fazem de que romance é, necessariamente uma história de amor. Mas isto foca para as aulas de teoria literária, o que não é nosso caso no momento. Vemos, na relação entre Heathcliff e Catherine, o encontro de dois mundos que, apesar de grandes diferenças (ele, um menino sozinho no mundo; ela, uma menina cercada de mimos), cultivam uma paixão a qual podemos classificar como correspondida. Contudo, meu caro, o verdadeiro amor, aquele ao qual chamamos como absoluto, como naquela canção da banda Legião Urbana, “Monte Castelo” que é uma união de um soneto camoniano (belíssimo e famoso) com a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13, quando diz: “é só o amor que conhece o que é verdade”, este amor vai enfrentar, no mundo, os mais diversos adversários que, de antemão, já entendemos que são totalmente opostos a ele. 

​No caso de Catherine, vemos a questão do interesse. Em sua questão foi em seu aspecto econômico. Entretanto, cabe aqui lembrar que existem muitos outros interesses em jogo que sempre acabam por jogar o amor para escanteio, como dizem os antigos, ou ainda, retirá-lo da lista de prioridades. Além do dinheiro, podemos citar o poder, a fama, o sucesso, o narcisismo e tantos mais. Não é à toa que os primeiros autores usavam os obstáculos ao amor genuíno como causadores de conflitos. É uma fonte inesgotável de recursos. Pode observar por aí. Como iria Artur da Távola: “Optar é renunciar. Entregar-se, por exemplo, a um amor é abandonar outros.” Ah, caríssimo, amar pressupõe renúncia. Aí está a grande dificuldade do homem, que só deseja angariar, conquistar. Ceder é algo bem mais custoso. Quantos “amores” cada um de nós carrega em seu peito? Quantos deles não são apenas desejos disfarçados de um mais puro e nobre sentimento? Faltam-nos respostas. E por quê? Pelo simples medo, muitas vezes, de se fazer a pergunta correta. Pois certas respostas exigem, de nós, compromisso. 

​Por outro lado, temos Heathcliff, um homem cujo amor lhe fora negado. Esta perda traz a ele uma enorme amargura acerca da vida. Apesar de vencer na vida, socialmente e financeiramente, contra todas as expectativas que se tinha dele, o fato de um amor malogrado e não mais correspondido, gerou em seu coração um sentimento de ódio que só poderia ter como fruto o desejo de vingança. Nós, caro leitor, já vimos em uma dessas nossas viagens, que a vingança tem um poder destrutivo ilimitável e que acaba por consumir todos a sua volta, porque ela facilmente foge ao controle de qualquer um. É claro que ele tem a ver com a obsessão, que se traduz em um apego exagerado por algo. Isso nos faz questionar quais eram os reais sentimentos dele por ela. Quantas relações não encontramos por aí, chamadas de amor, mas que não passam de desejos doentios, de posse, de domínio, de exclusividade? Relações que fogem totalmente ao controle, chegando a gerar tragédias como as dos livros?

​Camões, no soneto citado usado para compor a canção, tenta descrever, de forma racional, o sentimento amoroso, como no trecho: “Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor.” Não há palavra, talvez melhor, para caracterizar o amor como a palavra contraditório, caro leitor. Ele nos mostra diversas fases e faces o tempo todo. Diante disso, bastaria então a cada um de nós evitá-lo para nos pouparmos de grandes danos, e tudo estaria resolvido, não é? Ah, fosse assim tão fácil… diria ainda outro poeta português, Fernando Pessoa: “Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios.” Temos de reconhecer que não parece ser tão simples assim. Alguns dizem: “mas deveria ser” e eu vos digo: “mas não é”. Sigamos nós, caro leitor, todos nós (sem exceção) navegando neste mar de sentimentos, ora à deriva (à espera e um resgate), ora com as duas mãos firmes no leme. No entanto entre todas essas faces, fico ainda com mais um trecho da mesma música em que se diz: “Ainda que eu falasse a língua do homens / E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.”​  

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. Pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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