“A pior nota que você pode receber é uma promessa, especialmente quando é confimada com um juramento; após o qual todo homem se retira e desiste de todas as esperanças ”

Meu caro amigo leitor, cá estamos nós, mais uma vez impelidos pelo espírito aventureiro, dispostos a ultrapassar mais uma fronteira em direção ao fabuloso universo da literatura. Possamos então seguir viagem, partindo da Polônia que nos permitiu acesso ao império do polêmico Nero, para nos deslocarmos até a cidade de Dublin, na Irlanda, no ano de 1726. Lá tomaremos um navio. Peço encarecidamente ao leitor que fique atento, pois nossa viagem não chegará ao seu destino programado. Inclusive, permita-me perguntar se o caro amigo sabe nadar, porque seremos vitimas de um naufrágio.  Para não sairmos do clima, acessemos a nossa “playlist” para a audição da música “Titanic suíte” de composição de James Horner para o filme que conta um dos senão o mais célebre naufrágio da história dos sete mares.

Assim sendo, viajemos em companhia do médico-cirurgião Lemuel Gulliver que, em sua primeira viagem marítima, acaba por escapar de uma fatalidade, chegando à deriva a uma ilha desconhecida. Ele acaba adormecendo na praia e, qual não é a sua surpresa, quando, ao acordar, percebe-se totalmente amarrado e subjugado por um grande bando de homenzinhos com aproximadamente quinze centímetros de altura. Bem surreal, não? Eles o temem por seu tamanho, por isso ele se encontra imobilizado. Dizem que ele está no reino de Lilliput. Convencidos de suas boas intenções, eles acabam por fazer amizade. Os tais liliputianos, revestidos de exibições de autoridade e poder, veem no gigante amigo uma ótima possibilidade de tomar o controle sobre a ilha vizinha (Blefuscu). Gulliver concorda em ajudá-los, mas depois, por não obedecer a todas as suas ordens, foi submetido a uma punição da qual fugiu.

Em sua segunda viagem, novamente nosso protagonista acaba, contra a própria vontade, na ilha de Brobdingnag, o país dos gigantes. Inclusive fico aqui pensando: “como pode alguém ser tão azarado assim para viajar de navio”? Lá ele acaba preso por um fazendeiro de 22 metros de altura que passa a exibir nosso herói como um animal raro, transformando-o em uma grande atração. O excesso de apresentações deixa-o doente e ele é vendido para a rainha. Depois de algum tempo, consegue novamente fugir (aliás a vida desse personagem pode ser resumida em dois processos: abandono e fuga).

Em sua terceira viagem, Gulliver se encontra na ilha voadora de Laputa, a qual possui um povo bastante evoluído, versado em artes musicais, astronomia e matemática, porém a fartura de conhecimento depara-se com uma ausência de prática, pois nenhum desses saberes resulta em qualquer benefício à sociedade, sendo uma cultura que se esgota em si mesma. Nosso protagonista deixa a ilha e parte em busca de outras aventuras por outros cantos desse imenso oceano que, segundo ele, trata-se do Índico.

O livro “As viagens de Gulliver” foi e ainda é (assim crê este que vos escreve), muitas vezes, tratado como uma obra para crianças. Ah, caro leitor, não caia nessa! Este é apenas um dos tantos exemplos de que a literatura vive a pregar peças nos leitores ingênuos há centenas de anos (como confirmam obras como “A revolução dos bichos” e “Alice no país das maravilhas” entre tantos outros). Claro que não há nada de errado em ler para o seu filho ou neto. O encontro com os liliputianos renderá boas risadas e mexerá tão bem com o imaginário dos pequenos. Contudo, Jonathan Swift foi muito além disso, pois, como sempre gosto de lembrar aos alunos, eis a força dos clássicos: eles não se esgotam em simplórias interpretações ou análises. Por isso sobrevivem ao poder corrosivo do tempo. Não é à toa que se tornam fontes inesgotáveis de conhecimento. Por que com esse livro seria diferente? Entretanto, acho que isso você já sabia (ou ao menos desconfiava) após tantas viagens juntos.

Na verdade, trata-se de não uma, mas várias jornadas, sempre ao mesmo lugar: o interior do homem. Pelas diversas ilhas que passa, Gulliver sempre está a explorar a natureza humana, em seu lado mais obscuro, como aquela face da lua que, por jamais termos visto, praticamente não fazemos conta de conhecer, todavia continua lá, desde sempre. Embora em ilhas diferentes, o protagonista frequentemente se depara com a mesma circunstância: a mesquinharia humana, marcada, entre tantos aspectos, por um assaz especial – a sede de poder, que a tudo justifica, como diz Caetano Veloso em uma canção: “Enquanto os homens exercem / Seus podres poderes / Morrer e matar de fome / De raiva e de sede / São tantas vezes / Gestos naturais…”  Gulliver assiste a uma sede por poder e riqueza, capaz de cegar qualquer um. Subjugar ao outro, tirar o que está de posse dele para o benefício ou satisfação próprios parece algo assim banal.

Vemos a todo canto do mundo, nas mais improváveis nações ou povos, que o homem jamais abre mão de suas ambições, por mais que, para construir o castelo de seus sonhos, ele tenha que demolir a tantos outros. É uma narrativa sobre respeito pela vida, sobre nobreza de coração (não títulos comprados e vazios de mérito) e sobre a dignidade, tantas vezes invisível aos olhos de muitos os quais se revestem da túnica da autoridade. Cabe muito bem lembrar aqui que estamos falando de um animal que escraviza seres da mesma espécie que a sua e ainda os trata como mercadoria barata. Vemos, ao longo do livro, os motivos mais fúteis para justificar-se uma guerra, como naquela música do grupo Uns e outros: “Vindo de todas as partes / Indo pra lugar algum / Assim caminha a raça humana / Se devorando um a um”, sem contar que certos homens enviam outros para a morte sobre a falácia de que estarão defendendo a soberania da pátria, que deixarão seus nomes na história, que sua morte em combate encherá de orgulho todos os seus.

Pode-se perceber que nossa humanidade não acompanhou o avanço tecnológico, ou seja, não crescemos em empatia, compreensão, tolerância. Se nossa ciência tanto evoluiu, ainda estamos em nível primitivo em relação à inteligência emocional. Basta dar um pequeno passeio pelas redes sociais para ver uma cultura de ódio, preconceito, intolerância e presunção que chega a dar náuseas em pessoas com um mínimo de sensibilidade. Swift faz uma crítica política e social à sua época, ao império inglês, em forma de sátira. Segundo o próprio autor: “quis agredir o mundo, não diverti-lo”, o que penso que estaria próximo de uma tragicomédia, como naquele velho ditado: “seria cômico se não fosse trágico”.

Há quase trezentos anos, caro leitor, é como se o autor perguntasse: “Aonde iremos parar?” Confesso que por mais que desejasse saber, não tenho essa resposta. E vos digo mais: talvez tenha medo de sabê-lo, pelo ritmo em que as coisas andam em tempos tão difíceis e povoados por incertezas. Assim, desejo terminar meu artigo de hoje, no mesmo tom de desilusão, com a última estrofe do poema de Drummond “Sentimento do mundo”:  “Quando os corpos passarem / eu ficarei sozinho / desafiando a recordação / do sineiro, da viúva e do microscopista / que habitavam a barraca / e não foram encontrados / ao amanhecer /esse amanhecer / mais que a noite”.         

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. Pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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