“Riquezas, glória, poder são mera fumaça, vaidade! O homem rico encontrará alguém mais rico do que ele mesmo; a maior glória de outro eclipsará um homem famoso; um homem forte será conquistado por um mais forte”.

Seja bem-vindo, amigo leitor, a mais uma incursão pelos domínios infindáveis do reino da literatura. Vamos dar sequência a esse nosso itinerário fantástico e imprevisível. Quero recorrer a nossa eclética “playlist” para a audição da canção “Ira di Dio” da fenomenal soprano francesa Emma Shapplin e deixemos a sua voz angelical nos levar além. Após termos conhecido a morte em pessoa (sei que isso é discutível), vamos sair às pressas do torrão lusitano para visitarmos a Polônia, no ano de 1895. Sim, meu caro, mais um carimbo em seu passaporte nessa nossa temporada europeia. Aviso de antemão que não ficaremos muito tempo por aqui, pois nossa obra de hoje nos remete ao Império Romano, ao longínquo século I, no início da Era da cristandade. Aqui encontraremos um misto de personagens reais e fictícias, porque, afinal de contas, a literatura é a fronteira mais tênue entre a realidade e a fantasia.

Antes de tudo, seria importante dizer que a expressão latina “quo vadis”, título do livro, significa “para onde vais”. Segundo a tradição cristã, essa pergunta teria sido feita pelo apóstolo Pedro, quando viu uma aparição do Cristo enquanto fugia de Roma, e o mesmo teria respondido a ele que já que ela estava fugindo e abandonando seu povo, ele (Cristo) estaria voltando para ser crucificado novamente pelo império. Você pode estar perguntando o que isso tem a ver com a obra. Eu respondo: tudo. Estamos no governo de Nero, um dos mais polêmicos imperadores romanos e figuras da história da humanidade, famoso por sua perseguição aos cristãos. Em uma festa promovida por ele, aliás, esses romanos eram famosos por suas festas, daí que veio vocábulo “bacanal” (sobre o qual não teremos tempo de explanar, ficando como tarefa aos mais curiosos), mas, voltando à específica festa: nela estão presentes diversas figuras da alta sociedade, entre elas – Lígia e Vinícius.

Ao mais aguçado leitor que já sentiu no ar o cheiro de par romântico, meus parabéns! Embora eu acredite que isso não seria tão difícil assim de se prever. O leitor também já sabe que onde há um par romântico, há de ter um obstáculo ao amor dos dois. Isso é uma regra de ouro do Romantismo (sem qualquer exceção). Eles pertencem a mundos totalmente distintos: ela, criada na fé cristã, ainda rejeitada pelo império; ele, um centurião romano, comandante militar, entregue às tradições. Lembra muito aquele poema divertido de Drummond “Balada do amor através das idades”, que conta a história de dois amantes que em todas as eras da história se encontram dos lados opostos, como na estrofe: “Virei soldado romano, / perseguidor de cristãos. / Na porta da catacumba / encontrei-te novamente. / Mas quando vi você nua / caída na areia do circo / e o leão que vinha vindo, / dei um pulo desesperado / e o leão comeu nós dois”.                 Infelizmente, caro leitor, a vida desse casal não será nada fácil, visto que se encontram no centro dos antagonismos de sua era. Esse tema é uma constante presente no cinema mundial, do qual fica aqui uma dica: o filme “Um reino unido” (2016) do diretor Amma Asante, baseado em uma história real de 1940, envolvendo o trono de Botsuana. Assista e veja o que uma sociedade é capaz de fazer para matar um verdadeiro amor.

Aliás, voltando ao nosso casal protagonista: por conta do amor, o impulsivo rapaz deseja roubar a moça e fugirem para um clássico “felizes para sempre”, o que ela não aceita. Então ele decide enfrentar o império, até o próprio Nero se preciso, para sua liberdade. Lígia, que antes não tinha nenhum interesse pelo centurião, agora se vê perdidamente apaixonada por ele. Os cristãos são frequentemente perseguidos, porém Lígia conta coma proteção de Ursus, fiel criado de sua mãe, um homem simples e inocente, dotado de uma força descomunal, o qual jurou proteger a moça com a própria vida.

Nero, ensandecido (está mais para uma caricatura do imperador), ateia fogo em Roma, pondo a culpa nos cristãos (inclusive, esse é um ponto complicado da história de Roma: não confirmam que foi ele, mas também não duvidam), gerando, assim, uma perseguição sem limites, com delações em troca de dinheiro por parte do povo, inclusive de Chilón, um filósofo que, por pura ambição, infiltra-se entre os cristãos, ganha sua confiança para depois entregá-los ao império por uma boa quantia.  Todos eles são entregues ao Circo Máximo (uma espécie de estádio) onde são entregues às feras selvagens, como sacrifício e forma de diversão (embora não tenha sido no império de Nero que isso tenha sido feito). Não, caro leitor, não é um erro. As pessoas divertiam-se ao ver algo do tipo, considerado até como um grande espetáculo, assistido de camarote, o que me faz lembrar Roberto Carlos, em uma de suas canções: “Eu queria ser civilizado como os animais…”, chocado diante da selvageria humana.

É uma obra muito rica em conteúdo, tanto que rendeu a seu criador o prêmio Nobel de literatura em 1905. Então, o que destacar disso tudo? Sienkiewicz critica os grandes impérios, erguidos à custa de banhos de sangue, pilhagens, opressão e, acima de tudo, o desrespeito pela vida humana. Escravização e exploração fazem parte da receita da ascensão de muitas das grandes nações (poderíamos citar muitas aqui) e com Roma não foi diferente. Quantas nações ao redor do globo ainda provam as sequelas do imperialismo, amargando como legado a guerra civil e a miséria? Vemos a intolerância religiosa dos romanos contra os seguidores do Cristianismo, crença ainda em desabroche, em torno de uns trinta anos passados da passagem do Cristo pela Terra. Ah! Como a vida pode ser irônica, caro leitor… o que diriam os cristãos (tão perseguidos nesta época) se pudessem ver que muitos de seus descendentes fazem, hoje, o mesmo com diversos outros credos, em especial aqueles que são frutos da matriz africana. O homem tem uma incrível capacidade, muito bem demonstrada pela História, de passar de vítima a algoz. A obra nos mostra os senadores romanos, que fizeram de seus mandatos um balcão de negócios, transformando o compromisso com o povo em uma legislação em prol dos próprios interesses. Já se passaram dois mil anos e nada mudou neste aspecto, basta olhar o número crescente de escândalos envolvendo os ditos “homens públicos”.

Por outro lado presenciamos um povo sedento de sangue, que se banqueteia com a desgraça alheia e assiste aos desastres como uma apresentação de gala. Não há mais atrações no coliseu romano, mas temos a mídia sensacionalista, que ganha preciosos níveis de audiência ao expor a desventura e pesar das famílias em rede nacional, somada aos abutres de internet, que ficam a farejar o infortúnio para convertê-lo em visualizações e curtidas. Infelizmente, meu caro, há gente que sente prazer em viralizar o sofrimento alheio (e não são poucos). Por último, a obra nos mostra que todo regime totalitário se alimenta de suprimir a liberdade. Ah, a liberdade… todo homem nasceu para ser livre e, não sei se o leitor concorda comigo, a liberdade é condição sine qua non para o amor, é o seu oxigênio. Como diz o centurião, no trecho do livro que abre nosso artigo de hoje, tudo o mais não passa de mera vaidade, material com o qual se constrói o alicerce dos impérios. Termino nossa viagem de hoje lembrando o apóstolo Paulo (também presente nessa obra) que por meio de sua carta aos Coríntios, inspirou Renato Russo (vinte séculos depois) nos versos da música Monte Castelo: “Ainda que eu falasse a língua dos homens / E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria…”       

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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