“Velho. É o que sou. Quero tudo e nada quero. Posso? Permites-me tal ousadia? Subir a mais alta montanha, conhecer o algures e o nenhures; tocar o fundo de todos os mares e deitar-me com as estrelas e correr como o vento.”

Bem-vindo de volta, caro leitor, novamente nos encontramos aqui presentes. Possamos mergulhar de cabeça nas águas; ora cristalinas, ora turvas, desse infinito oceano de saberes que é a literatura. Deixemo-nos levar ao sabor das ondas das experiências trazidas dos clássicos universais. Por que vos falo dessa maneira, com esse sotaque um meio que assim marítimo? Já deve imaginar que é porque hoje, mais uma vez, iremos singrar os sete mares. Acabei de pensar em quantas navegações fizemos juntos… não é mesmo? Aliás, nossa última viagem, se o caro leitor ainda lembra, foi marcada por uma sucessão de abandonos e naufrágios (acho que o Swift apelou com o Gulliver), o que acabou por não deixar boas recordações (sem falar no cruel destino do pobre capitão Ahab). Mas, deixemos de prosa e vamos voltar ao ano de 1952, nosso destino: mar de Havana, na costa da ilha de Cuba.

​ É aqui, á beira-mar, que vamos encontrar Santiago, um pescador que já começa a sentir o peso dos anos. Fazia um tempo considerável que ele não realizava boas pescas, não exibia grandes peixes. Apesar de ser uma pessoa dotada de grande experiência e dono de uma sabedoria que só a bagagem dos anos pode trazer, nosso protagonista é tido como uma pessoa já sem sorte para lançar-se ao mar, um fator que, (acredite se quiser!) se leva muito em consideração entre seus pares. Até mesmo seu aprendiz, Manolin, não o acompanha mais por conselho da família, sendo obrigado a procurar por pescadores mais jovens, contudo jamais deixa o companheiro, pois ambos possuem uma daquelas amizades inabaláveis, demonstrada por diversas vezes ao longo do romance, com várias manifestações de respeito e cuidado.

​É por causa do jovem amigo que Santiago não desiste de vez de seu ofício. Sua confiança é a energia que ainda o impele a aventurar-se pelo grande mar. Quando ele está por completar quase três longos meses sem pescar coisa alguma, desafiado pelos mais jovens, o velho resolve tentar uma nova tática: contrariando a lógica de cardume, distancia-se dos demais e aguarda. A estratégia acaba dando certo e um enorme espadarte (um peixe de uns cinco metros) fisga sua isca. A partir de agora, vai ter início uma feroz batalha: do homem contra o peixe; da experiência contra o vigor físico, das forças humanas contra o instinto da natureza. A força do peixe acaba arrastando-o para alto mar, onde o sol e o desgaste da luta com o peixe castigam-no impiedosamente. 

​Extenuado, Santiago enfim vence o espadarte. Mas, se você, caro leitor, acha que a luta termina aí. Lamento estragar a sua alegria. Tubarões aproximam-se para banquetear-se com o troféu de nosso herói, arrancando (literalmente) pedaços de sua grande conquista solitária. A distância da orla ainda é muito grande. Ele se encontra sozinho, exausto, o caminho de volta parece infinito, mas ele está disposto a lutar até o fim. Agora, caro leitor, vamos mergulhar mais fundo. É um livro curto, talvez o menor dos clássicos (120 páginas); porém não cometa o erro de subestimá-lo. Não faça isso, eu te peço. Há quem acredite que se trata apenas da história de um velho que sai para pegar um peixe. Como algo tão raso tornar-se-ia um clássico? Eis a sua resposta: não se trata apenas disso. Estes leitores pescaram somente os peixinhos pequenos que se aventuram tolamente pela superfície. Então, vamos ver a profundidade da obra.

​Começo com um questionamento, arvorado em um pensamento de Buda: “Por mais que na batalha se vença um ou mais inimigos, a vitória sobre si mesmo é a maior de todas as vitórias”. Contra quem Santiago lutava? Contra a natureza, contra o peixe, contra os mais jovens, contra a falta de sorte? Penso que com todos eles e, ao mesmo tempo, nenhum deles. Na verdade, é a luta do homem consigo mesmo. É a luta de alguém contra os seus limites, suas fraquezas, seus medos, sua condição humana. Não há nada a se provar para ninguém, a não ser para si mesmo. É disso que o Buda falava aos discípulos. É isso que leva Santiago ao confronto com o espadarte. Essa, caro leitor, preste bem atenção, é a luta de todos nós. E que fique bem claro: ela não se finda assim, de uma hora pra outra. Como se diz na estrofe inicial do poema de Gonçalves Dias “Canção do tamoio”: “Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida: / Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos / Só pode exaltar.” Ouvi, certa vez, que o mundo não para pra que você o conserte. Santiago usa de todas as suas forças, conhecimento, sabedoria, paciênciapara vencer o desafio. Ele está sozinho, contando só consigo mesmo. No fundo, não há mais a quem recorrer. É só ele, sempre foi só ele. 

​Não é à toa que ele se lança ao mar: aquela infinitude de água, a perder de vista, representa a vida, com seus ciclos: marés, ondas, tempestades, placidez. É a nossa vivência posta à prova, continuamente. Mas não para por aí: Santiago vem mostrar que a força da juventude ainda tem muito o que aprender com a sabedoria da velhice. E você pode me perguntar: “Como se faz para adquirir a sabedoria?” E eu te respondo, amigo leitor, só com a experiência. Por que você acha que o critério de liderança nas tribos indígenas é a idade? Por ser óbvio que a sabedoria é fruto da vivência, logo: quanto mais se vive, mais se aprende, mais se tem para ensinar. O homem mais velho foi posto mais vezes à prova pela vida. Também já parou para pensar por que Manolin e Santiago se dão tão bem? Um dos fatores é sua idade. Ambos estão à margem na consideração da sociedade: um já passou do tempo e o outro ainda não está na sua vez. O adulto se esquece de que já foi criança e mais ainda de que será um idoso. Esses dois se encontram, enxergam-se um no outro, esse ainda não chegou a ser um grande homem, coisa que aquele já foi, mas faz um bom tempo. Nesse abandono social, eles têm um ao outro, numa relação tão bonita de respeito e de carinho. Como é bom quando a gente consegue se ver em alguém…

​Caro leitor, note que, apesar das suas limitações e das circunstâncias, apesar do que os demais pensam ou até mesmo dizem sobre ele, apesar da ideia de que o universo conspira contra ele, Santiago ainda se permite sonhar e se dá a oportunidade de perseguir seu sonho. É dando sequência sobre essa grande metáfora da vida que termino o artigo de hoje com os versos da encantadora música de Tim Maia: “Mas quem sofre sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar / Razão para viver / Ver na vida algum motivo pra sonhar / Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar”.

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. Pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui