“A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos do que o homem”.


​Salve, salve! Estimado leitor, espero que esteja pronto para mais uma partida rumo a este universo de magia que é a literatura. Vamos imediatamente deixar para trás a atmosfera melancólica do fog londrino, visitado na semana passada, para fazer aquela que, acredito piamente,talvez seja a mais insólita de todas as incursões, jamais feita por nós nessa coluna. E por que eu digo isso? Embora estejamos nos dirigindo a Portugal, no ano de 2005 (grave este ano porque será o mais perto que chegaremos de nossos dias atuais) por causa do célebre escritor José Saramago, nossa narrativa de hoje se passa em um país sem nome algum e, como se não bastasse, em tempo indeterminado. Dessa vez, será de suma importância para nossa preparação, acessar aquela nossa velha “playlist” de viagem e seguirmos ao som de “Requiém em ré menor” que se trata de uma missa fúnebre composta por ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart, por encomenda do Conde Franz von Walsegg e que, inclusive, ficou inacabada devido à morte do artista em 1791. 

​Se o amigo leitor está pensando (aí consigo): “Por que falar tanto em morte?” Simples de responder: porque ela é, ao mesmo tempo, tema e protagonista de nosso romance de hoje. Isso mesmo. Você não entendeu errado, meu caro leitor: a temida e onipresente morte, a mais universalmente reconhecida criatura, em carne e osso (não sei se esse ditado pode ser aplicado a ela). Agora, caro amigo, envolvido por esse misto de curiosidade, mistério e temor, comecemos, enfim, a nossa história. Tudo começa no dia primeiro de janeiro, conhecido por alguns como primeiro dia do ano, com uma singela frase: “Naquele dia ninguém morreu”. Acontece que a morte, já cansada da ingratidão dos mortais e de ser alvo de tantas injustiças e de tantas perdas vinculadas equivocadamente a ela, resolve deixar de agir dentro das fronteiras desse país desconhecido. 

​Nessa primeira parte do romance, temos a morte, ainda abstrata e invisível, dando uma de Pôncio Pilatos, lavando suas mãos diante dos acontecimentos humanos, deixando, por tempo indeterminado, os homens entregues à sua própria sorte. A partir de agora, ninguém mais será levado por ela. Nesse ponto, o leitor desavisado pensa em todas as maravilhas e prodígios a que se resumiria um mundo em que o homem fosse imortal. Pense em quantas desgraças e tragédias seriam evitadas. Não haveria mais a dor da perda. Estaríamos para sempre perto de todos aqueles a quem amamos. Enfim, meu caro leitor, poderíamos fazer um imenso rol dos problemas e dores que nos seriam tirados como magica. Não se iluda, pois é isso mesmo que Saramago faz com cada um de nós, leitores, nos dando uma corda para que possamos nos enforcar com ela mais tarde.

​Como num jogo de estratégia, o narrador vai mudando suas peças e, pouco a pouco, nos mostrando como seria um mundo sem a morte e, por mais incrível que pareça, o resultado é extremamente caótico. Partindo, primeiramente, do ponto de vista econômico: muitos negócios como as funerárias e companhias de seguro decretam falência (já parou para pensar, por um segundo, meu caro: quantas famílias a morte emprega? Quanto capital ela mobiliza nesse mundo?). Quanto aos hospitais, eles entram em crise por falta de leitos, porque ninguém mais morre por lá. As igrejas e templos tornam-se vazios, pois, nessa nova ordem, a religião não tem função alguma. Como pregar a salvação da vida eterna ou o temor pelo juízo final se ninguém mais tem de enfrentar a morte? A partir de agora, a fé torna-se algo puramente obsoleto. E nas famílias? Reina a desordem: os filhos não herdam mais os bens nem se tornam chefes dos negócios da família agora que seus pais estarão presentes para sempre.

​Na segunda parte, a morte, depois de sete meses de greve, resolve aparecer de volta, vendo que sua experiência não poderia ser pior e, avisa, em rede nacional: a partir desse momento, ela voltará a agir, mas com uma diferença – mandará uma carta avisando as pessoas com uma semana de antecedência. É quando ela tem uma dessas cartas negadas que ela resolve visitar o mortal pessoalmente, como naquele magnífico filme de Martin Brest “Encontro marcado” (1998) em que a morte vem buscar um magnata, porém se apaixona por sua filha e resolve passar uns dias entre os mortais. No livro, ela, personalizada como uma bela mulher, humanizada, vem buscar o violinista, mas se apaixona por ele e se nega a levá-lo com ela, passando a viver uma grande paixão com ele. 

​Nos tantos livros e filmes em que a morte se materializou, sua discussão sempre foi sobre a vida, como no filme de Ingmar Bergman “O sétimo selo” (1957) no qual a morte vem buscar um cavaleiro das cruzadas, que a desafia para uma partida de xadrez enquanto conversam sobre a vida. Saramago não faz diferente, caro leitor, não o faz. A boa e velha morte continua sendo a discussão para o que fazemos das nossas vidas. A morte, meu caro amigo, é, na verdade, o que dá sentido à vida. Pense um pouco: é a consciência de que nossa vida tem fim que faz dela algo assim tão precioso, que faz cada minuto ser especial e incalculável. Mas não é só isso. Ela é a ordem desse mundo, muitas vezes tida como a grande vilã de todos os tempos. Sem sua presença, tudo seria um caos. No livro, o autor mostra por diversas vezes que o fim da morte em nada melhorou o homem. Ao contrário, tornou-o ainda mais imprudente e egoísta ao encontrar-se imortal, ou seja, uma vida que não se perde já não possui mais o mesmo valor. Tudo isso para mostrar o quanto negligenciamos a vida. Desejamos ser eternos, mas, afinal de contas, para quê? Para esgotarmos nosso planeta?

​Saramago fala de uma morte que acaba por apaixonar-se pela vida humana, que sente inveja da vida que os homens podem viver, o que não é nenhuma surpresa, porque a vida, de fato, é apaixonante. Por isso, ela larga tudo para viver seu amor com o violinista, porque se encanta por sua música. Contudo, caro leitor, vê-se um homem cada vez mais preocupado em prolongar sua existência à custa de terapias, técnicas, medicamentos e pedras filosofais (já ouviu falar em criogenia?) de que viver a vida com intensidade e entusiasmo, sem desperdiçar uma só gota. Como diria o poeta Mário Quintana: “A morte chega cedo, / Pois breve é toda vida / O instante é o arremedo / De uma coisa perdida. / O amor foi começado, / O ideal não acabou, / E quem tenha alcançado / Não sabe o que alcançou”. Nenhum momento pode ser perdido, meu caro leitor, nenhum sequer. 

​Como mostra um trecho da obra no início deste artigo, o homem é o grande responsável pela maior parte das tragédias e desastres aos quais assistimos com frequência. Claro que é mais fácil chamar tudo isso de fatalidade, destino, sina, azar e uma sorte de tantos outros nomes que procuram isentar o ser humano de suas atitudes. Tudo é causa e consequência. O resto não passa de pura invencionice. Não nos esqueçamos, amigo leitor, de que a vida é breve e preciosa, que ninguém é dono do tempo, que ninguém conhece o amanhã. Como diz uma canção de Raul Seixas: “Cada vez que eu me despeço de uma pessoa / Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez / A morte, surda, caminha ao meu lado / E eu não sei em que esquina ela vai me beijar”.


Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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