“É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo”.

Aqui estamos nós de volta, prezado leitor, para mais uma de nossas peregrinações aos templos sagrados da literatura. Eu o convido, mais uma vez, para partirmos em busca das tantas facetas humanas, escondidas nas páginas dos grandes clássicos, espalhados ao redor do nosso extenso mundo. Estamos de partida da bela São Petersburgo, imponente joia russa, em direção ao Império Austro-Húngaro. Você, caro companheiro de viagem, deve estar pensando: “Onde fica isso”? Meu amigo, não gastarei nosso precioso tempo com explicações históricas e geográficas. Apenas resumirei que se trata de um império que foi dissolvido em 1918, após sofrer amarga derrota na Primeira Grande Guerra e, para não deixa-lo perdido, tem como sua base, hoje, a Áustria, que abriga a belíssima e austera Viena.

​Situamo-nos no ano de 1915, embora o livro, segundo o que me contaram, foi escrito em 1912 (num espaço de apenas vinte dias). Mas isto é uma outra história que pode retardar nosso avanço em direção ao nosso protagonista: Gregor Samsa, um caixeiro-viajante (uma profissão tão antiga quanto o próprio nome sugere ser) que trabalha em um emprego do qual não gosta, mas que foi a forma encontrada por ele para pagar a dívida de seus pais (razão principal por se entregar a uma atividade que detesta). Gregor é o que os mais velhos chamam de arrimo de família, já que seu esforço sustenta o pai, a mãe e a irmã. 

​Mal temos tempo de conhecê-lo e, eis que o conflito cai como uma bomba sobre nossas cabeças. Nosso herói acorda sentindo-se estranho e, qual não é a sua surpresa (para não dizer espanto ou até mesmo desespero) para não dizer também de nós, leitores, quando ele descobre que se transformou em um inseto gigante, que se costumou definir como barata, como na música “Uma barata chamada Kafka”, da banda Inimigos do Rei, lá pelos anos 90, mas que em nenhum momento foi claramente determinado pelo narrador. Inclusive, trata-se de algo tão insólito que nem se faz a mínima ideia de como tal fato aconteceu. Mais inimaginável ainda, meu caro leitor, é a primeira grande preocupação de Gregor: ele não terá como trabalhar e poderá perder o emprego.

​Não demora para que o gerente do armazém em que ele é funcionário venha verificar o que aconteceu. Não se trata de uma preocupação com o funcionário, mas com o prejuízo que tal ausência possa acarretar ao seu lucro. Até para convencer-se de que realmente ele não estava apto a trabalhar. Porém este é o menor dos problemas: a transformação (metamorfose) de Gregor vai provocar um efeito cascata sobre sua família, pois, agora, ele não pode sustentá-los, o que vai influenciar de forma direta na rotina da casa. Seu pai agora terá de voltar ao trabalho. Sua família vai deixá-lo isolado no quarto para que não sejam obrigados a ver a criatura repugnante que ele se tornou. Todos dependiam dele e, agora, em uma reviravolta, ele passa a depender deles para as tarefas mais simples. Gregor conta com a compreensão somente da irmã, que ainda nutre por ele alguma afeição. 

​O pai passa a trabalhar, mas como se observa, nem tira o uniforme para dormir, como se fizesse parte dele. Surgem novos inquilinos para alugarem quartos na casa. Por isso, Gregor não pode sair de seu quarto, coisa que acontece um certo dia, assustando a todos eles e pondo fim ao contrato, o que acaba por ocasionar o ódio de sua irmã. Ele agora se tornou um fardo para a família, alguém que ninguém conseguia mais encarar, dirigir o olhar por poucos segundos. Era uma verdadeira aberração. Todos desejam a sua morte. Para que ele pare de sofrer? Infelizmente não, caro leitor, mas para o fim do sofrimento deles. Gregor não era mais o esteio da família, portanto, não tinha mais qualquer utilidade.

​Ao sofrer a metamorfose, ele só pensava no seu trabalho, que ele mesmo confessara detestar, por saber que ele era o sustento de todos, aliás, só concordou em trabalhar pensando em sua família. Também temos um outro lado: aquele trabalho era a única coisa que fazia, portanto era o que o definia de certa forma. Ficar sem ele seria como perder sua identidade, como se pode observar na música do Gonzaguinha: “Seu sonho é sua vida / E a vida é trabalho / E sem o seu trabalho / Um homem não tem honra…” Pergunto a você, amigo leitor, quantas pessoas por aí você conhece que, ao serem interrogadas sobre quem são ou o que fazem, respondem prontamente com sua profissão. Se nunca o fez, faça o teste. Mas, ao mesmo tempo, o trabalho que o identificava era a atividade que o descaracterizava como ser humano. Parece um tanto paradoxo, não é? Para alguns, impossível de se imaginar…

​É aqui que o sagaz Kafka queria chegar: o processo de desumanização do ser humano, a perda de sua essência, de sua sensibilidade. A rotina que absorve o homem como uma areia movediça invisível, destituindo-o de suas , digamos, humanidades. Ele começa a perder aquilo que o difere dos demais seres: segue regredindo, transformando seus possíveis talentos em meros instintos. É dessa metamorfose que o livro nos fala: de uma família preocupada não com a perda do ente querido, mas da fonte de renda, do gerente preocupado não com a perda do companheiro de trabalho, mas da mão de obra. É o homem que se despe de sua humanidade e, por consequência, de sua dignidade.

​Vemos aqui o absurdo da condição humana, da alienação, que acaba por tornar o home uma besta-fera, como tão bem exemplificado no livro “Vidas secas” de Graciliano Ramos. O que liga o vaqueiro Fabiano, no sertão das Alagoas ao Gregor do Império Austro-Húngaro? O processo de animalização do homem, o qual passa a ser tratado como um bicho qualquer. E isso tudo, por quê? Porque nossa individualidade, aquele bem precioso, entra em conflito com os padrões sociais determinados sabe-se lá por quem. 

​Vivemos em um mundo, caro amigo leitor, em que as mortes deixam de referir-se às pessoas para tornarem-se números, meras estatísticas. Os acidentes e tragédias já parecem ter tomado o lugar comum e muitos chegam a citar vários deles como simples dados. A matéria passou a falar mais alto e o dinheiro que era para ser um meio de subsistência, agora é o objetivo de muitos. E o que fazer com tanto dinheiro? Ora, comprar, comprar e comprar. Ter é o verbo que substitui o ser na definição da essência humana hodierna. Pergunta-se, com frequência, quantos seguidores um artista ou celebridade tem, afinal, nas redes sociais, mas raramente se busca saber quem ele é, na verdade. Que valores ele segue? Sua personalidade pode ser traduzida entre curtidas, visualizações e seguidores…

​Quero terminar aqui, amigo leitor, deixando a simbólica imagem da metamorfose da borboleta, aquela já muito discutida e usada em nossa literatura (e não é à toa) por trazer  ricos significados sobre a evolução e a superação, descrita nas palavras da canção “Metamorfose”, mesmo título do álbum do artista Phil que eu, acidentalmente (não sei se posso assim definir), conheci em um desses dias, e que quero terminar essa minha reflexão sobre as transformações: “Escolhas tão difíceis de fazer / A indecisão faz parte do meu ser / A nossa dor não passa na tv / E a escuridão me trouxe o renascer…”

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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