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Ser professor é a melhor profissão do mundo. Ponto, parágrafo!

Tenho notado, pode ser apenas implicância de alguém que chega aos 50 anos, que a juventude de hoje carece de sonhos, desafios e limites. Ao expor isso nas redes sociais obtive reações adversas, mas, para aqueles que me arguiram e afirmaram que exagerei, deixe-me relatar um fato ocorrido há algum tempo atrás e que me inspira até hoje.

Temos que voltar a 1995, naquele ano me envolvi em um projeto de implantação de uma grife educacional em Campinas, que alavancou a minha carreira e é diretamente responsável pela minha projeção no mercado dos cursinhos pré-vestibulares. Mas sobre isso escreverei posteriormente para exorcizar os fantasmas do meu passado.

Naquele ano, tornei-me coordenador de um cursinho pré-vestibular, além de lecionar no mesmo local, o que me fez conviver diariamente naquela instituição, dividi a coordenação com um grande amigo (Lorenço), eu ficava no turno tarde/noite. Por conta disso, nos horários de saída da turma da tarde e entrada da turma da noite eu estava sempre presente e acabei conhecendo pessoalmente alguns alunos e suas histórias. Apesar do desgaste maior, sempre tive uma maior predileção pelas turmas noturnas, costumam dar mais valor ao nosso trabalho pois, geralmente, são os próprios alunos que custeiam seus estudos.

Dentre os vários que conheci, Reginaldo (turma da noite) foi o mais marcante. Certa tarde, por volta das 17h45, notei que no saguão de recepção do curso, lá estava Reginaldo folheando o jornal do dia. Puxei papo:

– Meio cedo pra você estar aqui, camarada, não dá tempo de ir até em casa e voltar pra aula das 19h15? Indaguei.

– Xi, professor, se eu fizer isso, perco a hora, moro longe, por isso prefiro vir pra cá depois do trabalho, leio o jornal e vou estudar um pouco até o início da aula. Assim ele me respondeu.

– Pelo menos um lanche você toma? Continuei.

– Somente enquanto duram os tíquetes (sim, amigos, houve um tempo em que não existiam os cartões magnéticos) do mês, depois eu aguento até chegar em casa, sabe como é, passagem de ônibus, alimentação, vai grana e o que eu ganho vai praticamente tudo pra pagar o cursinho….

– Vai prestar o que?

– Engenharia elétrica, noturno, na Unicamp, bem concorrido, né?

– De fato, mas se você continuar assim, vai passar Reginaldo, boa sorte…

Encerrei a conversa condoído com o relato, esse menino saía de casa todos os dias por volta das 6h00, trabalhava o dia todo, vinha pro cursinho, às vezes sem jantar, sem um banho revigorante, assistia a todas as aulas, não faltava aos simulados que eram aplicados nos domingos pela manhã e as suas chances eram mínimas. Disse pra ele que daquele dia em diante ele ficava proibido de assistir aula sem, pelo menos, lanchar. Pedi pro pessoal da cozinha, que preparava o lanche dos professores, para separar um lanche a mais e dar pro Reginaldo, que, em princípio, não aceitou, mas diante da minha insistência (que não foi tanta assim…) acabou cedendo.

Passado esse fato, houve uma noite que tive que ficar até o fechamento do curso, nesse tempo as aulas iam até 23h20. Vai hoje colocar aulas depois das 22h30… não fica ninguém. Assim que todos se foram, saí da escola, me despedi do vigia que passava a noite no prédio e dirigi-me ao estacionamento, era uma fria noite de maio em Campinas e o outono estava mais para inverno naquela ocasião. Ao sair do curso me deparo com Reginaldo todo encolhido debaixo da marquise do prédio. Fiquei sabendo que todos os dias ele esperava seu pai ali, que passava para buscá-lo entre 0h30 e 1h00. O pai de Reginaldo era motorista de ônibus fretado, que transportava alunos para uma cidade próxima, após deixar todos, o pai voltava para pegar o filho e voltarem juntos para casa. Chegando em casa, ele ainda estudava até as 3h00…

Fiquei sabendo também que aquele seria seu primeiro e último ano de cursinho, pois o seu salário ajudava nas despesas domésticas e já estava fazendo falta, passar na Unicamp era a única possibilidade de continuar seus estudos…Eu e meus companheiros mais chegados de profissão passamos a sonhar junto com ele. Veio o vestibular e a apreensão da 1a. fase, Reginaldo passou…. passamos a respirar mais aliviados, mas agora vinha a agonia da 2a. fase, quatro dias de provas em janeiro, para depois ficar um mês apreensivo, esperando a lista de aprovados.

O fato é que Reginaldo foi aprovado, quando recebemos a lista (nessa época ainda não se divulgava pela internet…absurdo, não?) e pudemos ver seu nome nela, foi uma alegria sem tamanho, risos, choro, caras pintadas, cabelos raspados.

Depois disso perdi o contato com o Reginaldo. Trombei com ele anos depois na Unicamp. Aliás, não é mais Reginaldo, é DOUTOR Reginaldo. Ele concluiu sua graduação em 2001, entre 2002 e 2006 ele pós graduou-se e agora está partindo para a Universidade de Albany (EUA), onde fará seu pós-doutoramento……Como diz o Prof. Dr. Leandro Karnal: “Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos.”

Em tempo, o pai de Reginaldo não precisa mais dirigir ônibus fretados….Boa sorte camarada, continue nos enchendo de orgulho!!!

Coluna | Papo com Baez Historiador e Sociólogo (UNICAMP) Atua como Professor em Cursos Pré-vestibulares. É autor de materiais didáticos para as Editoras Moderna e Saraiva. Comentarista do Programa Preto no Branco (Centro de Notícias) Âncora do Programa RadioAção (Rádio IPB3/APECOM)

2 COMENTÁRIOS

  1. Não consegui conter as lágrimas Prof. Baez. São as recompensas da vida, por um dia ter estendido a mão.

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