“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”

Bem-vindo de volta, caro leitor, a mais uma escala de nossa viagem. Deixemos a Grécia Antiga com seus deuses e heróis para partir rumo à Dinamarca. Sigamos ao som da opus 67a de Tchaikovsky (Hamlet: música para a tragédia de Shakespeare, 1891) deleitando-se com a riqueza que somente a arte pode nos propiciar: uma composição russa sobre uma obra inglesa que trata de um príncipe dinamarquês – isso sim, meus senhores e senhoras, é linguagem universal.

Estamos no ano de 1601 e estamos nos aproximando do castelo de Elsinore, ponto de partida e cenário para a maior e mais famosa peça de William Shakespeare (anote o nome desse homem porque ele ainda vai dar muito o que falar): “A tragédia de Hamlet, o príncipe da Dinamarca”. Conforme já foi dito antes, se temos o nome “tragédia”, temos a garantia do maior número de mortes possível até o final, a começar pelos protagonistas, pois esses dramaturgos não poupam ninguém – legado dos escritores gregos.

Na cena inicial temos o encontro do protagonista com um espectro (o fantasma do pai) que revela ter sido assassinado pelo irmão Cláudio, que tomou seu trono e acabou desposando a recém viúva, mãe de Hamlet. Seu pai exige vingança como reparação de tamanha injustiça, acompanhada da ocupação do trono por seu legítimo herdeiro.  Eis o conflito que será a mola propulsora até o fim da trama. Caso você tenha tido uma pequena impressão de já ter visto algo semelhante em um roteiro infantil, tenha a certeza de que não se enganou: este enredo, mesmo que de forma simplista, serviu de base para a animação da Disney “O rei leão”.

Nosso amado príncipe é considerado um dos personagens mais inteligentes da literatura universal e, nesta obra, seu brilhante criador nos dá a chance de tomarmos mil caminhos temáticos para discutir. Entretanto, para não deixar a cabeça do leitor um tanto quanto perdida num turbilhão de assuntos, irei explorar apenas algumas trilhas. Nosso herói já se encontra com seu primeiro dilema: uma crise moral e ética. Será mesmo a vingança uma forma de justiça? Dúvida tão atual, não é verdade? Trata-se apenas de uma das inúmeras reflexões que invadem o filosófico príncipe.

Como parte de sua vingança (ainda não tão clara para ele), Hamlet finge estar louco e, por um fatal engano, mata Polônio (conselheiro do rei) ao confundi-lo com o rei, oculto atrás de uma cortina (conforme eu vos disse – estamos em uma tragédia – comece a contagem). Polônio é pai de Ofélia e Laerte. Agora, entra em cena o elemento romântico (estamos sempre às voltas com esse daí): Ofélia e Laerte nutrem uma paixão um pelo outro, mas, como já devíamos imaginar, dentro dos limites passionais, seu namoro é proibido por não pertencerem ao mesmo nível social – ele, um nobre, de sangue real; ela, uma filha de um serviçal. Por isso, seu pai a proibira.    

Laerte jura vingança pela morte do pai, apoiado e incentivado pelo monarca que deseja a morte do sobrinho sob a alegação de loucura. As terríveis circunstâncias em que se dá a trama acabam por levar Ofélia ao suicídio. Em meio a tantos acontecimentos, para a surpresa do leitor, não falta espaço para diversas reflexões, com destaque para a famosa, talvez a mais célebre citação literária: “Ser ou não ser: eis a questão” que cobra do ser humano uma posição diante da vida, traduzida de uma maneira mais crua, despida da solenidade shakespeariana: é viver ou morrer.

A grandeza de uma obra pode ser medida por sua influência artística nas gerações futuras, afinal é isso que diferencia um clássico das demais obras, parafraseando o fantástico Ítalo Calvino em sua obra “Por que ler os clássicos”: trata-se de um livro que não morre nunca, vive eternamente nas referências das obras posteriores. Assim é Hamlet: uma obra que inspirou várias versões de filmes, frutos de grandes produções, com atores de ponta como Laurence Olivier, Kenneth Branagh e Mel Gibson. Isso sem contar a vastidão de estudos e obras que exploraram o seu potencial filosófico e psicológico.

Cabe aqui citar livros também influenciados, desde os tempos remotos, como o romance “Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister” (1795), do alemão Goethe (autor cuja obra faz parte de nosso itinerário) até nossos tempos, com a obra “O eu aprendi com Hamlet” (2018) escrita pelo renomado palestrante Leandro Karnal que, entre seus ensinamentos, cita “somos todos contraditórios: heróis com traços de vilania”, reafirmando a natureza da dualidade humana: o bem e o mal estão em nós, como aquela bela fábula contada pelo sábio índio da nação Cherokee sobre o lobo bom e o lobo mau.

Hamlet, como tenho defendido em minha coluna e, você, amigo leitor e companheiro de viagem, assim como o céu azul que nos cobre, é testemunha, é uma viagem ao interior o próprio homem, um passeio pela condição humana. Quando ele afirma que “pode-se pescar, com um verme que haja comido um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme”, nosso protagonista nos fala dos mistérios (citados na frase de abertura deste texto) que cercam esse mundo que dá tantas voltas.

Como se observa, ao longo da peça de Shakespeare, Hamlet tem como constante prática o pensamento e, à primeira vista, pode parecer ao leitor que tal comportamento só lhe ofereça vantagens… Não se iluda, meu caro, pois a mente nos prega algumas peças. Segundo pode se ver por meio da trama, o pensamento percorre um longo caminho, que vai da prudência à covardia. Sem mais, termino aqui nossa viagem com um questionamento do próprio Hamlet “Será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e flechas com que a Fortuna nos alveja ou insurgir-nos contra um mar de provocações?” A vida, caro leitor, aguarda a tua resposta.

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui