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Abro esta reflexão com um fragmento da fala de José Mujica, ex-presidente do Uruguai, ao documentário “Humano”, de Yann Arthus-Bertrand:

“A constituição da nossa natureza é tão notável, que acabamos aprendendo muito mais pela dor do que pela bonança. Não estou recomendando o caminho da dor ou algo do tipo. O que quero dizer e transmitir às pessoas é que a gente cai e se levanta de novo. Sempre vale a pena recomeçar mil e uma vezes enquanto se está vivo. Essa é a maior mensagem da vida. Os derrotados são os que deixam de lutar, e deixar de lutar é deixar de sonhar. Lutar, sonhar e andar com os pés no chão, encarando a realidade. Esse é o sentido da existência, o sentido da vida. Não se pode viver cultivando o rancor. E não se pode viver dando voltas. As dores que sofri na vida, ninguém vai consertar. Ninguém vai apagá-las. É preciso saber carregar as cicatrizes e seguir olhando para frente. Se eu fico só cuidando dos ferimentos, não vou poder seguir em frente. A vida para mim é sempre futuro. O que importa é o amanhã. Muitos me dizem clamando, como um aforismo, que é preciso ter memória para não repetir o passado. Eu conheço o bicho humano. É o único animal que tropeça vinte vezes na mesma pedra. E cada geração aprende com aquilo que vive, não com o que as outras viveram. Eu não idealizo o homem. A história dos outros nos ensina o quê? Só aprendemos com aquilo pelo que passamos”.

Faz 11 anos que sou enfermeira e professora de enfermagem. Posso dizer que ao longo da minha trajetória profissional eu presenciei muitas alegrias e muito sofrimento. Lembro da primeira perda de um paciente, lembro da primeira alta hospitalar, lembro do primeiro triste diagnóstico, lembro da primeira cura. Considero até que presenciei um pouco mais de sofrimento do que bonança. Meu território de trabalho sempre foi o território da vida real, sem virtualização: esse misto de prazer e dor, esse encontro de tantas vidas diferentes, compartilhadas em um recorte do espaço e do tempo.

Já fui assim interrogada: “Como você consegue trabalhar nesta profissão? É muito pesada, vale a pena?”. Não omito que já pensei exatamente isso, infinitas vezes. Quem sabe eu poderia ter escolhido outras profissões que me parecem mais alegres e menos penosas, no turismo ou na publicidade e propaganda, por exemplo. Mas eu escolhi, aos 16 anos, trabalhar com saúde e doença, cura e sofrimento.

Diante dessa pergunta que frequentemente me colocam, a filósofa Viviane Mosé conseguiu traduzir minha resposta, até a mim desconhecida. Segundo ela, “uma das razões do sofrimento é o rompimento da alma para ela se tornar maior, e quando a alma se torna maior, ela cabe mais mundo”.

Assim me sinto hoje. Minha profissão rasga a minha alma, tornando-a maior. Rasgar produz dor, mas também expansão. Como disse Mujica, não se trata aqui de defender a dor ou estabelecer uma apologia ao sofrimento. Mas se a nossa vida é formada também pela dor, o que faremos diante dela? Iremos nos diminuir ou nos expandir?

Uma das experiências mais marcantes da minha vida profissional e pessoal foi ter o privilégio de trabalhar no campo da saúde mental por dois anos. Apesar dos inegáveis avanços na área, trata-se de um território ainda negado, estigmatizado, subestimado, silenciado. Posso dizer que nunca presenciei tanto sofrimento, em pessoas de todas as idades e condições sociais. Nessa área, trabalhamos profundamente com a história de vida das pessoas, e posso dizer que me deparei com verdadeiras sagas. Comumente vistos pela sociedade como estranhos, ameaças ou inconvenientes a serem isolados, nunca presenciei tantas almas rasgadas, cheias de mundo.

O meu desejo era, e continua sendo, que todas elas fossem libertas de seus sofrimentos. Nada justifica aquela dor. Mas posso dizer que nunca me ensinaram tanto sobre sofrimento e humanidade como naqueles dias. Mujica diz que a gente só aprende com o que vive. Assim eles me ensinaram: não por transmissão de teorias, mas pelas experiências que juntos construímos naqueles encontros.

Um deles me ensinou algo que eu nunca esqueci. Ainda adolescente, ele estava internado, lutando contra um transtorno mental grave. Sempre conversávamos sobre jogos e desenhos animados, temas que ele adorava e muito sabia.

Certa tarde de domingo, após as visitas familiares, fui saber como ele estava. Começou ali uma conversa aparentemente trivial. Sua mãe tinha levado uma porção de feijoada, exceção permitida uma vez na semana, o que o deixava feliz. O assunto se tornou “preferências alimentares”. No meio do bate-papo, disse a ele que meu pai não conseguia comer carne de cordeiro. Durante a infância, meu avô sempre lhe dizia que o cordeiro, símbolo de Cristo, quando é abatido, sofre em silêncio.

Assim, o silêncio tomou conta da nossa experiência. E então ele disse: “Seu pai não come essa carne porque não se pode mastigar nem engolir um sentimento”.

Restou-me chorar, pois minha alma também se expandiu naquele momento. Percebi que, mesmo em um difícil contexto e condição, ele produzia arte, poesia, filosofia, sabedoria, sensibilidade, humanização. Todos esses elementos também podemos buscar, a partir do nosso sofrimento. Essa experiência foi única e imensa, nada comparada com meu tempo de trabalho, presença em congressos ou artigos e livros lidos. Ele não só me ensinou algo, mas me fez viver uma experiência própria, no compartilhamento daquele breve instante de um plantão hospitalar, mostrando que é possível extrair da dor a ressignificação, a saúde, a potência de vida.

Logo, percebi que meu espaço de trabalho, assim como a existência, não era só um campo de sofrimento, mas um jardim.

Da terra, talvez fria e subterrânea, também emana flor, oxigênio, cor e vida.

Coluna | Mente aberta Professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), graduada em Enfermagem (USP), Doutorado Direto em Ciências (USP), Estágio de Doutorado no Exterior (Universidad de Alicante, Espanha), Pós-Doutoranda em Psicologia (USP), Coordenadora do Projeto MenT-Aberta: Encontros Virtuais em Saúde Mental e Trabalho, Criadora do Blog Lâmpada: Ensaios sobre saúde, trabalho e enfermagem.

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