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“Parecia-lhe que certos lugares na terra deviam produzir felicidade, como uma planta particular ao solo e que cresce mal em outro lugar”.

Seja bem-vindo, caro leitor. Primeiramente cabe aqui um pedido de desculpas pelo atraso de nosso itinerário. Infelizmente, toda viagem, por mais que seja planejada, acaba estando sujeita a imprevistos. Agora, sem mais delongas porque, como disse um dia o poeta latino Virgílio: “sed fugit interea, fugit irreparabile tempus” (entretanto foge, foge o irreparável tempo), peço que embarquemos imediatamente, nessa segunda-feira (dia oficial da preguiça), partindo da Alemanha em um voo bem curto até a França, nosso exato destino, também com um pequeno avanço no tempo: para o ano de 1857.

Permita-me apresentar Emma, uma jovem criada na tranquilidade do campo e educada em um convento. Seu maior passatempo era a leitura de romances, gênero típico da época. Nas narrativas Emma mergulhava de cabeça em enredos que a fizessem fugir da sua vida, considerada por ela, entediante e sem atrativos. As aventuras passionais e reviravoltas não tão imprevisíveis faziam com que a jovem esquecesse um pouco o marasmo em que vivia.

Surge, então, Charles Bovary, um médico interiorano, que acaba por se encantar pela moça. Ela vê no rapaz uma oportunidade de escapar daquela sua vidinha. Casamento marcado, esperanças conservadas e, por que não dizer, o nascimento de altas expectativas quanto ao futuro.  Emma traz para o novo lar uma bagagem repleta de sonhos: de uma vida de romance ardente; da paixão como uma chama inextinguível; meras recriações dos tantos romances que lera escondida.

Acontece que Charles não era um homem ambicioso, tampouco tinha consigo uma paixão ou algum sonho pelo qual valia a pena lutar. Assim, podemos dizer que ele levava uma vida sem a maior das pretensões ou perspectivas de futuro. Não estava na profissão que desejava, por isso a dificuldade para terminar o curso e ser admitido como médico Com certeza, o caro leitor já deve imaginar que tal união tenha tudo para fracassar… e que essa velha história de que os opostos se atraem é tudo conversa fiada, não é? Você não é único a pensar assim, meu caro. Não são necessários muitos dias para que Emma perceba que aquela vida de casada que ela almeja, na verdade, não existe, ao menos no seu caso específico, como se observa naquela música do Chico Buarque: “Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim / Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim…”

Entediada e tomada pela mesmice (ela tem uma empregada para fazer as tarefas domésticas), Emma busca alguma forma para preencher seu tempo e sua monotonia com algo que realmente valha a pena. E aí, caro leitor, acho muito oportuno um ditado das antigas que diz “Cabeça vazia, oficina do diabo”. Emma resolve tentar viver aquelas aventuras que ilustravam as narrativas românticas, aquelas pelas quais tanto ansiava em sua vida a dois. Neste momento, entra em cena um tema antes nunca citado nos romances: o adultério. Ela passa a encontrar-se com outros homens, construindo uma vida paralela. Além disso, contrata um estilista para adquirir novas roupas, para assim poder sentir-se melhor. Resolução essa que vai gerar uma dívida exorbitante.

Dentre seus amantes, um se destaca: Rodolphe, um rico proprietário da região, um verdadeiro estereótipo do conquistador barato, aquele com suas frases prontas e os gestos cafonas que transmitem a impressão de um verdadeiro cavalheiro, lembrando-me imediatamente do personagem Basílio, do livro de Eça de Queirós. Cá entre nós, meu caro leitor, eles parecem a mesma personagem (podendo ser pura coincidência – ou não), com pouquíssimas diferenças. Emma parece enfim saciar sua fome de amar e ser amada, como naquela música do Roberto Carlos: “Nos lençóis macios / Amantes se dão / Travesseiros soltos / Roupas pelo chão / Braços que se abraçam / Bocas que murmuram…” A vida parece ter tomado seu rumo certo para ela. Sabe aquela sensação de ter a vida que se pediu a Deus e de que nada poderá dar errado?      

Mas cabe trazer o leitor de volta a terra e pôr os pés no chão. Pois é assim que se procede em um romance realista, do qual Madame Bovary é o primeiro exemplar, o precursor, o primeiro de muitos que virão a seguir e que encontrarão grandes autores pelo mundo, como o nosso insuperável Machado de Assis. Nestes enredos só há uma lei a se seguir: a de causa e consequência e, dentro desta lei, gosto de lembrar de uma das Leis de Murphy: Se uma coisa pode dar errado, ela vai dar errado”. Ah! Pobre Emma, embora tenha nascido tantos anos dessa máxima, poderia ter dado ouvidos à voz da prudência. Porém, cega pelo seu ultrarromantismo (eu já te avisei diversas vezes antes, caro leitor, que o Romantismo é um perigo) acaba acreditando que poderá fugir do seu medíocre médico interiorano, aquele homem sem interesses que valeriam a pena, sem desejos ou luxos, que atendia moribundos o dia todo e que só chegava ao lar ao fim do dia sem uma história interessante pra contar.

Ela propõe ao seu amante fugirem para sempre, para um lugar distante, onde sua vida será um eterno romance, digno das páginas e um talentoso Alexandre Dumas ou Walter Scott, que eles podem ser felizes para sempre como nos contos de fada. Contudo ela não sabe que, para Rodolphe, ela é apenas mais uma. Ele é um homem solteiro, um aventureiro, sem compromisso algum com alguém. Ela é uma bela distração, mas não vai colocá-lo para cantar só para ela em uma gaiola de ouro. Ele espera pela oportunidade perfeita para descartá-la, como já fez com tantas outras. Ao se dar contas que seu castelo de areia desmoronou-se de vez: sem honra e endividada, Emma entra em pânico. De volta ao mundo real, ela sabe que para certas coisas nessa vida não há volta.

O romance realista vem a ser uma reação ao mundo criado pelos românticos e seus finais felizes. Ele vem apontar o casamento burguês como uma grande ilusão, um show de aparências. Seus escritores colocam o enlace perfeito em xeque. Pela primeira vez na literatura, trata-se do cotidiano do matrimônio e seu fracasso. Por que nunca se tinha falado de adultério? Já discutimos no nosso livro anterior que os homens acham que o fato de não se discutir um problema é uma forma de resolvê-lo, que fingir que ele não existe seja uma ótima estratégia. Também porque muitos chegavam a ver o adultério como uma alternativa para provar um pouco daquela paixão que não se tinha no casamento. Cada ideia que se tem…

Mencionando a frase citada no início do artigo, Emma procura pela felicidade como um tesouro escondido numa ilha, aquele lugar especial que está distante da nossa visão, para o qual existe uma palavra mágica que faça abrir a porta. Ela nunca pensa na possibilidade de construir o seu sonho de futuro, que ser feliz não é um bilhete de loteria, um prêmio aleatório, mas que é fruto de todo um esforço, acompanhado do resultado das escolhas que fazemos. Por que não fazer da felicidade o aqui e agora, transformando o real, em vez de esperar sempre pelo depois e pelo lá distante. Isso tudo me faz lembrar o final do fantástico soneto do parnasiano Vicente de Carvalho, sobre a felicidade: “Essa felicidade que supomos / Árvore milagrosa que sonhamos / Toda arreada de dourados pomos / Existe, sim: mas nós não a alcançamos / Porque está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos”.        

Coluna | Literatura: apenas ficção? Só que não. Marcio Fabiano Monteiro nasceu em Ribeirão Pires-SP, em1974 e mora em Ribeirão Preto desde 2004. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Letras pela Universidade de Sorocaba, especialista em Gramática pelas Faculdades Integradas Oswaldo Cruz. Professor há 26 anos, leciona Língua Portuguesa nas redes de ensino municipal e particular da cidade. Escreve poemas desde 2006 e dedica-se ao cordel desde 2017. Membro da UEI (União dos Escritores Independentes), da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto e da Academia Internacional de Literatura e Artes Poetas Além do Tempo.

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