Há muitas coisas importantes que aprendemos (e não aprendemos) e que afetam a nossa vida. Quando o assunto é saúde mental, temos certeza plena dessa afirmação.
Como um ciclo que se retroalimenta, aprendemos em todas as fases da vida a silenciar, subestimar e negar nosso sofrimento mental. Eis, portanto, o nosso primeiro aprendizado destrutivo: o negacionismo.
Desde criança, o menino é ensinado a engolir o choro, a guardar sentimentos e emoções, a jamais perder um jogo. As meninas são treinadas para serem delicadas, passivas, serenas, impecáveis e, sobretudo, cuidadoras de tudo e de todos, nunca de si mesmas. Desde crianças aprendemos a não olhar para dentro.

Na escola nos ensinam matemática, português, geografia, música e educação física, mas não há sequer uma disciplina sobre educação emocional. Nunca fomos ensinados a falar sobre nossas emoções e a lidar com elas. Aprendemos idiomas alheios, mas nossas palavras lapidadas de dentro, estranhas e autênticas, quase nunca podem ser expostas e ouvidas.
Na adolescência, as famigeradas redes sociais produzem conteúdos sobre saúde mental que perdem para imagens de padrões físicos e estilos de vida caricaturais, excessivamente positivos, que não existem. O que predominam são mensagens como “sorria”, “seja bonito”, “mostre suas glórias”, como se a tristeza, o medo, a insegurança e a ruína não fizessem parte (natural!) da vida.
Na fase adulta, somos identificados pela nossa profissão ou pela falta dela, e não pelo que sentimos ou desejamos. Importam mais os projetos de trabalho e sucesso financeiro do que os projetos de vida. Também avaliam se temos família, filhos, viagens, uma casa própria, o carro do ano ou, quando solteiros, se os encontros casuais e as curtidas na internet estão a todo o vapor. Largar o emprego de 20 anos, mudar de área, trabalhar menos, ganhar menos ainda ou engordar são o fim do mundo.

Sobre a velhice, os aprendizados equivocados sobre saúde mental são um cardápio cheio: ser idoso significa o fim da vitalidade, da beleza, do desejo sexual, dos sonhos, do prazer de viver, da vida. Ser idoso no Brasil é ter um transporte público precário, ruas péssimas para caminhar, serviços de saúde sucateados e escasso acesso a ações de promoção da saúde mental e socialização. “Seja fitness, faça harmonização facial e agende a cirurgia estética, mas não envelheça”. Envelhecer se tornou sinônimo de doença, tristeza e solidão.

Como outro movimento de aprendizado perigoso sobre nossa saúde mental, temos a patologização.
Mesmo para aqueles que se deparam cara a cara com o sofrimento mental (quem nunca?), aprendizados estigmatizantes também existem. Aprendemos a ver o sofrimento mental unicamente como doença, loucura, incapacidade, medicamento controlado da receita azul e trancado na gaveta de psicotrópicos da farmácia. Ou não olhamos para ele, ou miramos assustados e categóricos: “psicólogo é coisa de melancólico, psiquiatra é coisa de doido”, “fulano toma remédio, coitada da esposa”, “o filho da ciclana começou a terapia, vai saber o problema que eles escondem”.

Lembremos ainda que a definição de patologização está nas mãos do capital. Quando a pandemia da COVID-19 surgiu, de duas uma: ou fomos impelidos a seguir a vida felizes apesar da doença e das mortes (numa espécie de dissociação patológica da realidade), ou a nos desesperarmos, porque acordar triste significaria depressão, ter insônia no isolamento seria um distúrbio grave do sono, lavar as mãos 20 vezes ao dia, transtorno obsessivo-compulsivo, e sentir falta de ar sem ter covid-19 quem sabe fosse um transtorno de ansiedade generalizada.

A patologização do sofrimento mental é tamanha, que acabamos adoecidos mais pelo medo de adoecer do que pelo sofrimento em si. A que ponto chegamos?
Precisamos rediscutir urgentemente o que chamamos de normal e anormal, se é que essa categorização de fato possa ser delimitada ou sequer exista.
Citemos outro aprendizado danoso sobre saúde mental: a auto-culpabilização pelo nosso estado emocional, numa espécie de meritocracia da saúde mental.

Por que eu estou triste hoje? Por que eu estou ansioso? O que eu fiz ou deixei de fazer? O que eu deveria ter feito? Por que eu não estou dando conta? O que acontece comigo?
Por que individualizamos ou atribuímos unicamente a nós mesmos tudo o que se refere ao nosso sofrimento mental? Somos seres meramente biológicos, ou somos afetados pela conjuntura social, histórica, econômica, cultural e política? Acho que a pandemia já escancarou essas respostas.
O Coach é um especialista em meritocracia da saúde mental. Ele diz: “você pode tê-la, basta querer”. Acontece que não basta eu querer saúde mental para tê-la. Há que haver investimento nos serviços de atenção psicossocial, há que ter um salário digno para pagar terapia, há que ser vacinado contra a covid-19 para não ter medo de morrer.
Por fim, aprendemos errado com quem nos ensina errado, separando corpo e mente e valorando ambos de forma díspare, aquilo que chamarei de fragmentação.

Você pode pensar que um profissional da área talvez pense diferente. Triste engano. De modo geral, nossa formação fortalece a crônica divisão entre corpo e mente, como se não fôssemos um todo interligado. As disciplinas de saúde mental nos cursos da área da saúde são justamente disciplinas: recortadas, isoladas, com reduzida carga horária, esquecidas ao longo dos anos de estudo e enterradas durante o exercício profissional. Entramos nos serviços de saúde olhando as doenças físicas, os diagnósticos nos prontuários, os exames alterados. Não questionamos se estar internado ou receber um diagnóstico médico grave trouxe ansiedade, temor ou desesperança aos pacientes.

Por que deixamos de olhar a alma das pessoas? Não é doentio pensar que falar de saúde mental virou coisa de especialista? Por que abdicamos dos aspectos mais humanos e viscerais da existência, que são as nossas emoções?
Avançamos nas tecnologias em saúde e esquecemos que, quando estamos tristes, nosso corpo pode produzir lágrimas ou liberar substâncias específicas no sangue, mostrando que corpo e mente vivem integrados e, sobretudo, se respeitam. Ao reprimirmos nosso sofrimento mental, reprimimos nossa humanidade, nossa capacidade de se exercer, de ser quem somos.
Logo, deixar de olhar para si é deixar de ver o outro também. Quem sabe a frieza e a capacidade destrutiva do ser humano também venha desse lugar, da negação das nossas emoções, da nossa casa interior, da importância da saúde mental em nossas vidas.

E quem sabe o nosso maior aprendizado sobre saúde mental seja o de que ela é uma construção social. Não é culpa individual, nem sua, nem minha.
Se, enquanto lê esse texto, você se percebe triste, ansioso, com insônia, com aumento do apetite, sem esperança no futuro, “improdutivo”, com vontade de dormir o dia todo, no meio de uma pandemia que não acaba, saiba que isso não é problema seu.

É claro que sofrimento mental tem a ver com fatores genéticos, neurotransmissores, doenças orgânicas e outros elementos fisiológicos. Mas não se esqueça que o sofrimento mental é um fenômeno coletivo: sofremos mentalmente em decorrência do medo de contaminação, das perdas, da falta de emprego, da ameaça de demissão, do isolamento, da solidão, da sobrecarga de trabalho, do valor dos produtos no mercado e nos postos de combustíveis, da falta de vacinas, das reportagens de países sem máscara e a gente em lockdown. Não poderia ser diferente.
Como disse um psiquiatra citado por Eliane Brum em sua assertiva análise: você e eu estamos doentes de Brasil. Estamos doentes das condições e não condições de vida que nos são patologicamente proporcionadas.

Caso você perceba que todos esses sentimentos se arrastam e se cronificam, prejudicam seu dia a dia e te paralisam, também não entre em desespero, porque literalmente você não está sozinho (não é frase de coaching, é frase de estatístico mesmo!). Procure ajuda profissional sim. Fale sobre o assunto com pessoas de confiança, sem medo. Busque recursos de autocuidado, e faça isso por você.

Por fim, quando você olhar um feed de uma rede social, um show dos anos de 1980 pela televisão ou quando voltar a caminhar pelas ruas no meio da multidão, vacinado (espero que em breve!), lembre-se que a saúde e o sofrimento mental estão espalhados em todos os corpos que se movem. Lembre-se também de tirar da sua frente o negacionismo, a patologização, a meritocracia e a fragmentação da saúde mental, que nos impedem de seguir e se exercer.
Ao retirar essas barreiras você poderá ver emoções calejadas, mas certamente encontrará potência de vida, ansiosa para vicejar. E por fim, não esqueçamos: a sociedade que elegemos determina a nossa saúde ou sofrimento mental.

Coluna | Mente aberta Professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), graduada em Enfermagem (USP), Doutorado Direto em Ciências (USP), Estágio de Doutorado no Exterior (Universidad de Alicante, Espanha), Pós-Doutoranda em Psicologia (USP), Coordenadora do Projeto MenT-Aberta: Encontros Virtuais em Saúde Mental e Trabalho, Criadora do Blog Lâmpada: Ensaios sobre saúde, trabalho e enfermagem.

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