A pandemia da estupidez: parte II

Em terra de doutor, quem tem Luísa Mel é rei

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Mark Zuckerberg, o homem que comanda Facebook, Whatsapp e Instagram, é hoje o maior emissor de certificados de PhD no Brasil. Nunca antes na história desse país -sim, foi proposital- houve tantos especialistas de redes sociais. Médicos, economistas, gestores públicos e, essa semana, veterinários e biólogos. Explico, amigo, leitor, o que diabos um analista político falará sobre medicina e fisiologia animal: como uma elefanta torna-se pauta política e a estupidez endêmica que faz dela tema de manchetes e discussões midiáticas e online.

Resumidamente, para não virar textão de Facebook, a elefanta Bambi, sob os cuidados do bosque/zoológico municipal Fábio Barreto, foi considerada incapaz de ser transferida e ambientar-se em um santuário de sua espécie no Mato Grosso. Tal parecer foi emitido pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, endossado pelo próprio zoológico e por especialistas em animais silvestres. Trata-se de um animal de 40 anos, proveniente de um circo, criado em cativeiro, cego de um olho, traumatizado e, portanto, incapaz de enfrentar as 16 longas horas de viagem (sedativos e stress) e a vida fora do cativeiro. Como todo animal residente no zoológico Fábio Barreto, é inapto à vida selvagem, longe dos cuidados de tratadores, biólogos e veterinários.

Bambi e seu tratador Orivaldo, juntos há 20 anos.

Aparentava, objetivamente, ser um assunto técnico e, uma vez discutido por indivíduos especializados na temática, ou seja, que estudaram e atuaram profissionalmente, a maior parte de suas vidas, na área abordada. Subestimei, amigo leitor, a pandemia de estupidez que assola o país há cerca de 500 anos, mas que se tornou visível e impossível de ignorar, um elefante na sala (há!), com o surgimento das redes sociais. Incrédulo, assisti viralizar um abaixo assinado -repercutido por uma subcelebridade das fofocas e um padre conhecido não por suas pregações, mas por sua conta de Instagram- contra a permanência da elefanta em Ribeirão Preto.

Em tempos de Covid-19, sofá e celular são parceiros inseparáveis do afegão médio, (per)seguidor voraz de subcelebridades -entre ex BBBs, panicats, capas de revista e autores de algum escândalo na vida pessoal de figuras públicas, houve imensa repercussão. Logo, é objeto ideal de populistas sanguessugas do erário, com ou sem mandado.

Sem sequer conhecer a instituição que abriga o animal, o padre e a fofoqueira interferiram não só na vida dos sérios e competentes profissionais que cuidam e zelam pela saúde do animal, mas com a vida política do município. Tão incapazes de opinar quanto o político oportunista, o povão e este que vos fala.

O absurdo nunca é demais. Bambi, por determinação de um iluminado do poder Judiciário -sim, aquela galera que acha que é Deus- irá para o santuário. A decisão, publicada na segunda-feira, 17, partiu do desembargador Roberto Maia, da 2ª Câmara Reservada ao Meio Ambiente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP). A ex capa de revista masculina e o padre blogueiro realmente são influencers de peso. Estudar pra quê?

 Em terras tupiniquins, o muro anda em cima do gato, como diria minha finada avó. Todavia, trata-se de algo tão comum, corriqueiro, quanto os ruídos da rua para um paulistano. O absurdo nunca saiu de moda. É o novo preto. Cadê meu Rivotril e minha cloroquina?

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