Nossa economia produtiva requer que o consumo se torne nosso modo de vida, a convertermos no ato de comprar e usar bens como rituais, que tenhamos satisfação pessoal e espiritual ao consumirmos. Precisamos consumir, queimar, substituir e descartar em uma velocidade muito rápida. 

Victor Lebow

Cotidianamente, somos bombardeados e temos que “admirar, se identificar e desejar” pessoas, carreiras e objetos de consumo que representam o suprassumo do sucesso, da felicidade e da vida bem sucedida. Seja na vida real, na mídia ou no netflix, parece que o mundo foi feito para as pessoas bonitas, inteligentes, bem nascidas,ricas e não para gente como a gente, simples e humilde. Na comparação com a vida glamourosa exposta nos outdoors e na TV, surge uma pergunta inevitável: qual o sentido dessa vida comum, vegetativa, de trabalhar para pagar as contas no fim do mês, essa vida de prazeres fugazes e desgostos permanentes? 

Ainda mais porque testemunhas ou vítimas de diversos acontecimentos mórbidos e mortíferos, que nos deixam muito perplexos e desencantados com o mundo,com as pessoas, especialmente com os poderosos e com a vida, que vai sendo dramatizada nesse cenário e contexto. No nosso próprio imaginário e na mente medrosa, as notícias veiculadas pelas diversas mídias, de casos de agressão, corrupção, roubos milionários e outras formas de violência contra os fracos e oprimidos, que nos fazem perguntar: onde está a justiça? Onde está o senso de humanidade das pessoas? E qual é o sentido de tudo isso? Tragédia ou comédia?

Viver sem um sentido e fundamento sólido é navegar à deriva, sem rumo e sem objetivos, capturado peloconsumo voraz e invejoso. Certamente todos nós temos objetivos, metas a alcançar, mas, quando estes são estritamente egoístas e individuais, provavelmente nos levarão à ruína, atingindo as pessoas em volta com os nossos destroços. Sendo assim, nossos objetivos devem ser mais nobres e integrados ao coletivo, visando não somente um bem-estar individual, mas a própria ordem social e o bem comum.

O sistema político e econômico só se preocupa com dados, números e estatísticas, e no controle repressivo e ideológico da população, não nos oferecendo um sentido para nossa existência e nem mesmo supre nossas necessidades básicas de sobrevivência. Para preencher essa lacuna existencial, muitas pessoas recorrem às religiões, filosofias e até mesmo às ciências e tecnologias, que buscam dar algumas respostas que satisfaçam aqueles que buscam um sentido para o próprio existir.

Para os japoneses e seus descendentesikigai é uma palavra chave que significa “razão de viver”, “objeto de prazer para viver” ou “força motriz para viver”.  De acordo com eles, todos têm um ikigai, e descobrir qual é o seu,requer uma profunda e, muitas vezes, extensa busca de si mesmo. Porém, essa busca é extremamente importante porque, somente a partir dela, é possível trazer satisfação,significado e sentido para sua vida.

Portanto, ikigai é um estilo de vida que busca harmonia, longevidade e a satisfação plena nas diferentes áreas da vida, permitindo assim alcançar a razão de ser ou o propósito para a sua existência. A busca pelo sentido na vida está (na sociedade moderna) profundamente ligada ao entendimento de Quem Somos (nossas crenças, relacionamentos, cultura, formação, etc), mas também em boa parte sobre O Que Fazemos (profissão, vocação, trabalho, lazer, etc). 

“Dentro de si há uma paixão, um talento único que dá sentido aos seus dias e incentiva-o a dar o melhor de si mesmo até ao fim. Se ainda não o encontrou, a sua próxima missão será encontrá-lo”. (Provérbio japonês).

Coluna | "Sentidos da vida cotidiana no Mundão" Sérgio Kodato é professor doutor da USP e Coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da USP de Ribeirão Preto, além de autor do livro: “O Brasil Fugiu da Escola: motivação, criatividade e sentido para a vida escolar.”

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